Título: 'Ele não me serve mais. Vamos queimar'
Autor: Rosa Costa, João Domingos
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/08/2005, Nacional, p. A14

Leitura labial feita por técnicos revela o que disse Waldomiro Diniz a Carlos Cachoeira durante encontro no Aeroporto de Brasília em 2002

BRASÍLIA - A CPI dos Bingos divulgou ontem o resultado de leitura labial feita por técnicos surdos, a pedido da Polícia Federal, que revelou o conteúdo da conversa entre Waldomiro Diniz e o empresário dos jogos Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, durante encontro no Aeroporto de Brasília, em 2002. De Cachoeira não foi possível obter nada, mas do ex-assessor de Assuntos Parlamentares da Casa Civil foram decifradas frases que surpreenderam os integrantes da CPI. Depois de desligar o telefone celular no saguão do aeroporto, e se encontrar com Cachoeira, Waldomiro diz: "Isso vai rolar muito dinheiro, muito dinheiro... Eu me responsabilizo. Eu me responsabilizo. Não se preocupe." Em seguida, ele atende ao telefone. Fica de costas, fala um pouco e se despede.

E volta a conversar com Cachoeira: "Nós temos duas opções. Ou nós pegamos e acabamos com ele ou tentamos negociar, mas no fim eu vou sair ganhando. Ele não me serve mais. Vamos queimar. Eu sei que ele pode fazer isso, mas tem que ser confidencial. Não se preocupe que ninguém vai tocar em você. Eu te dou total cobertura."

LOTERJ

Na época, Waldomiro era presidente da Loteria do Rio de Janeiro (Loterj) e Cachoeira havia vencido uma licitação para instalar máquinas de loterias instantâneas no Estado. Segundo Waldomiro, Cachoeira não cumpriu o contrato. "O que ele queria mesmo era espalhar no Rio 20 mil máquinas de videojogo", disse o ex-assessor do ex-chefe da Casa Civil e hoje deputado José Dirceu (PT-SP).

Um pouco mais à frente, na conversa no aeroporto, Waldomiro diz para Cachoeira uma frase que parece remeter a uma licitação: "Com certeza ela vai ganhar. Eu tenho acompanhado e tenho certeza que vai ganhar. Faço uma aposta contigo de que ela está à frente dos outros. Já fiz contato não só no Rio, mas com outros governadores. Eles também estão nos apoiando e é coisa grande."

Depois de ouvir Cachoeira, Waldomiro responde: "Polícia Federal, pelo amor de Deus. Eu acho muito difícil aqui no Brasil. É péssimo. Jamais." Depois, ele promete a Cachoeira: "É claro que vou te pagar. Nós já tínhamos combinado... Lembra?"

Mais à frente, aparecem seguidas frases sobre dinheiro: "Eu sei como explicar isso... Dinheiro não se esconde. Precisamos disfarçar. Isso a gente precisa lavar."

Em outro trecho, Waldomiro comenta com o empresário: "É um documento em sigilo que ninguém pode saber. A polícia não pode saber. Tá tudo indo, tudo andando. O advogado... Ele faz um trabalho e não revela a ninguém. E já faz um trabalho para mim... Isso é feito fora daqui, tá entendendo?... Não sou burro... Não. Pensa que vou fazer isso aqui dentro... Uma manchete bem grande, uma manchete. É... Uma manchete bem grande... Peraí. Vamos preparar uma manchete bem grande para despistar... Mil e quinhentos..."