Título: Empresário queria liquidar bancos, negócio de R$ 9,8 bi
Autor: Eduardo Kattah
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/08/2005, Nacional, p. A7

Valério pressionou BC a concluir liquidação dos Bancos Econômico e Mercantil de Pernambuco, que se arrastam há anos

Além de operar esquemas escusos com o PT, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza usou sua proximidade com o poder para praticar tráfico de influência. Associado ao Banco Rural e aliado a Delúbio Soares e José Dirceu, Valério pressionou o Banco Central a concluir as liquidações dos Bancos Econômico e Mercantil de Pernambuco, que se arrastam há anos, num negócio que poderia render R$ 9,8 bilhões aos beneficiários e foi brecado pelo presidente do BC, Henrique Meirelles. Em 27 de outubro de 2003, Valério levou um representante da família Queiroz Monteiro a um congresso socialista no Hotel Transamérica, em São Paulo, e o apresentou, sucessivamente, a Delúbio Soares, ao então ministro José Dirceu e, por último, ao presidente Lula. Ao apresentá-lo ao presidente, Delúbio nomeou o convidado como "o cara do Mercantil".

De acordo com duas fontes do Estado, o esquema montado por Valério tinha uma franca e dedicada colaboração de Delúbio e Dirceu. Meirelles conseguiu barrar a pressão do esquema com o apoio do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, mas virou alvo do fogo amigo desfechado a partir da cúpula do PT e da Casa Civil.

"Se tivesse ido adiante, teria sido o grande escândalo do governo Lula", diz hoje uma credenciada fonte do governo. Esta semana, quando confirmou num depoimento ter pedido ao ex-controlador do Econômico, Ângelo Calmon de Sá, para marcar uma conversa com dirigentes da Portugal Telecom, Marcos Valério revelou a ligação estreita com o banqueiro baiano.

Segundo técnicos da área econômica que acompanharam o caso, Palocci e Meirelles teriam avaliado recentemente que a atuação do BC no caso "estragou todo o esquema e salvou o presidente Lula de um impeachment inevitável".

DOIS COELHOS

Valério se aproximou dos ex-controladores do Mercantil logo no início do governo, via Banco Rural, que detém 22% do banco em liquidação. Participou de muitas das quase 20 reuniões que representantes dos ex-controladores fizeram com o Rural, em Belo Horizonte, na posição de "consultor de marketing". Aos poucos, ganhou desenvoltura e, no final, foi algumas vezes ao BC para pressionar pela liquidação.

Na verdade, Valério queria pressionar ao mesmo tempo pelas liquidações do Mercantil e do Econômico, o que permitiria o impressionante volume de R$ 9,8 bilhões (R$ 9 bilhões do Econômico e R$ 800 milhões para o Mercantil) - 178 vezes o valor dos empréstimos do mensalão. O porcentual que ele teria negociado com os ex-controladores para sua taxa de sucesso é desconhecido.

A "solução" de Valério previa a venda dos ativos injetados pelo Proer nos dois bancos falidos (NTN-A3 - Notas do Tesouro Nacional), corrigindo a dívida dos bancos falidos pela Taxa Referencial (TR), embora fosse auferir toda a valorização dos títulos cambiais. O BC exigiu que as dívidas fossem corrigidas a juros de mercado, até o valor das garantias.

À época, contam assessores de Meirelles e Palocci, o presidente do BC foi advertido que a recusa do projeto de Valério lhe causaria dores de cabeça. Ele só veio entender quando se avolumaram os boatos plantados pelo fogo amigo dirigido, colocando em xeque a sua permanência no cargo.

Nas várias vezes em que esteve no BC pra tratar das liquidações, em novembro e dezembro de 2003, Valério falava como se tivesse autorização plena do Banco Rural e muita força política por trás. Mesmo assim, nenhuma delas se traduziu em sucesso.