Título: Rural é dono de empresa na Ilha da Madeira
Autor: Eduardo Kattah, Eduardo Nunomura
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/08/2005, Nacional, p. A13

LISBOA - O Grupo Rural não tem apenas um escritório na Ilha da Madeira. No site da instituição, o grupo lista entre suas empresas com sede no arquipélago português a Serra Dourada S.C.E. Ltda. Mas nem mesmo a secretária do Banco Rural na Ilha da Madeira sabia confirmar a existência da empresa.

Já a assessoria do Banco Rural em Belo Horizonte pediu um tempo para dar uma resposta sobre a Serra Dourada. Mais de sete horas depois, informou que se trata de uma "empresa não financeira controlada pela Rural Corretora de Valores, com sede em Funchal e escritório em Lisboa".

O escritório do Banco Rural Europa - sucursal do Rural na Madeira - apareceu quinta-feira nos depoimentos do publicitário Duda Mendonça como uma das origens do dinheiro que alimentava contas nas Bahamas e que estariam ligadas ao escândalo do mensalão. Um dia antes, o Estado publicou uma reportagem relevando que, apesar de lucros milionários, o banco tem um número reduzido de clientes em Funchal, capital da ilha.

Enquanto o escândalo passava a envolver o arquipélago português, o gerente do Banco Rural Europa estava em Lisboa em reuniões e só ontem retornou à ilha, que fica a mais de mil quilômetros da capital portuguesa.

Sobre a empresa Serra Dourada, nem mesmo a Sociedade de Desenvolvimento da Madeira, entidade que promove o setor empresarial na ilha, tinha informações sobre seu registro. A empresa também não está registrada na lista telefônica da ilha nem na nacional. Um importante escritório de advogados em Funchal, o SMS, também afirma que nunca ouviu falar na empresa.

O Banco Rural poderá perder a licença para operar o Banco Rural Europa se for provado que sabia de esquemas de lavagem de dinheiro ou corrupção. Um dos cheques que Duda Mendonça recebeu para pagar a campanha de Lula era do Banco Rural Europa.

Segundo a Assessoria de Imprensa do banco, já ocorreu uma investigação interna: "Não há corrupção, apenas uma transferência bancária de um correntista daquela unidade para a conta da Duseldorf (sic) de Duda Mendonça", o banco respondeu por escrito ao Estado. O banco sequer considera que a transação seja vista como indício de lavagem.

A procuradora-geral adjunta Maria José Morgado - famosa em Portugal por ter levado ao tribunal crimes de corrupção e ter denunciado a ligação do futebol com esquemas de lavagem de dinheiro - disse que apesar de ser uma zona franca, a lavagem de dinheiro é crime na Madeira. "A lei não abre exceção para a região."