Título: Cientistas fazem célula adulta virar embrionária
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Fonte: O Estado de São Paulo, 23/08/2005, Vida&, p. A16

WASHINGTON - Na contramão das regras naturais, uma equipe de pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, conseguiu munir células adultas com propriedades embrionárias. O processo, detalhado na próxima edição da revista Science (www.sciencemag.org), é aparentemente simples. Células da epiderme, adultas, foram fundidas com células-tronco embrionárias, tiradas de linhagens preexistentes voltadas para pesquisa. Um produto químico fundiu as duas células em laboratório, levando à formação de uma terceira, híbrida, que mostrou morfologia, taxa de crescimento e capacidade de se diferenciar em outros tecidos iguais a de uma célula-tronco embrionária de verdade, numa reprogramação bem-sucedida.

As células-tronco, principalmente as embrionárias, têm a capacidade de se diferenciar em qualquer tipo de tecido do corpo humano. Hipoteticamente, elas poderiam formar neurônios para tratar doenças degenerativas, como mal de Parkinson, por exemplo.

Para usar as células de embriões, é preciso destruí-los quando têm alguns dias, procedimento que suscita debates sobre o início da vida. Outra questão dificulta sua utilização: por conterem o código genético diferente do paciente, podem ser rejeitadas pelo corpo.

Até a divulgação do estudo de Harvard, a única maneira de se obter células-tronco embrionárias era a clonagem terapêutica, quando um embrião é criado com o núcleo de uma célula do paciente (carregando, então, seu código genético). A técnica é proibida nos Estados Unidos, assim como no Brasil.

O novo feito pode até parecer uma superexploração dos métodos científicos para subverter a ordem lógica do desenvolvimento da vida. Só que a intenção do grupo é justamente se esquivar de uma questão ética envolvida na pesquisa com células-tronco - o uso de embriões clonados - e de quebra cavar mais oportunidades para a pesquisa básica em seu país.

"Há grupos de pessoas nos Estados Unidos e em outros lugares que acham fundamentalmente errado destruir embriões em estágio inicial", afirma um dos autores da pesquisa, Kevin Eggan. A reprogramação da célula adulta não é um "substituto", diz ele, mas certamente dribla a resistência, inclusive do presidente americano, George W. Bush, que limitou o financiamento federal para pesquisas do gênero.

Existe um porém: o núcleo da nova célula carrega 92 cromossomos, o dobro do normal, indicando que ele contém o código genético tanto da célula adulta quanto da embrionária. É "uma barreira técnica substancial" para a aplicação da técnica, explica Eggans.

Se experimentos futuros indicarem que o estado reprogramado é mantido depois da remoção do DNA da célula-tronco embrionária, as híbridas poderiam teoricamente ser usadas para produzir linhagens individuais sem ser preciso criar e destruir embriões humanos.

O pesquisador lembra que o trabalho, como qualquer outro que envolve pesquisa básica, está no começo e pode se mostrar improdutivo. "Este é o primeiro passo em uma estrada longa e incerta."