Título: Furacão faz petróleo futuro disparar
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Fonte: O Estado de São Paulo, 30/08/2005, Economia & Negócios, p. B1
A passagem do furacão Katrina pela região sul dos Estados Unidos fez o petróleo futuro atingir as maiores cotações de todos os tempos, por causa do temor de que a produção no Golfo do México possa diminuir por um período expressivo. Em Nova York, o contrato de outubro fechou em US$ 67,20 o barril, em alta de 1,62%, depois de beirar os US$ 69. Mas no "after market" chegou a US$ 70,80, o maior valor desde que contratos futuros começaram a ser comercializados na Bolsa nova-iorquina, em 1983, recuando depois para US$ 70,01. O contrato de gasolina para outubro projetou o equivalente a R$ 1,35 o litro, em alta de US$ 0,22, enquanto o de óleo de calefação projetou o correspondente a R$ 1,26 o litro, uma valorização de US$ 0,17.
O Katrina atingiu uma área crucial para a infra-estrutura energética dos EUA. Nos Estados de Louisiana e Mississippi há exploração "offshore" de petróleo e gás, terminais de importação, redes de dutos e muitas refinarias (ler mais sobre a passagem do furacão na pág. A12).
No Golfo do México são bombeados 1,5 milhão de barris por dia, um quarto da produção americana e 2% da produção global de petróleo. Por causa do furacão, cujos ventos superaram os 280 quilômetros por hora, várias plataformas marítimas foram danificadas e algumas foram evacuadas, o que levará a um corte de produção calculado em 600 mil barris por dia. A Shell acredita que deixarão de ser extraídos 420 mil barris de petróleo e 1,35 milhão de m3 diários de gás natural, e a ExxonMobil estima uma perda de 3 mil barris e 50 milhões de m3.
"O único modo de evitarmos uma nova alta é o presidente Bush liberar petróleo das reservas estratégicas americanas", afirmou David Thurtell, estrategista do banco australiano Commonwealth. O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, disse que o Departamento de Energia está avaliando a situação. "Obviamente, as reservas estratégicas existem para situações de emergência, e isso inclui desastres naturais. Mas é cedo demais para sabermos dessa necessidade." Em setembro de 2004, Bush autorizou a venda de 45 milhões de barris dessas reservas depois que o furacão Ivan causou estragos na mesma região.
Para Victor Shum, analista da empresa texana Purvin & Gertz, "não é apenas a suspensão da produção que preocupa, mas o fato de que as plataformas marítimas poderão sofrer sérios danos. Isso interromperia a produção por um longo período. É a situação perfeita para os preços dispararem".
Marshall Steeves, analista do Refco Group, disse que "ninguém ainda conhece toda a extensão dos estragos. Especula-se que a situação seria pior do que quando o furacão Ivan assolou o país. Mas conheceremos os problemas só daqui a alguns dias".
Para complicar a situação, o porto offshore do Estado da Louisiana ficou fechado neste final de semana, por precaução, impedindo o desembarque de 1 milhão de barris de petróleo.
OPEP
No Kuwait, o ministro da Energia desse país árabe, xeque Ahmed Al Sabah, presidente da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), disse que tentará convencer o cartel a aumentar a produção na sua reunião do dia 19. Nós estamos tentando de tudo para estabilizar os preços", afirmou. "Mas parece que a questão não se prende mais apenas à produção. Há outros fatores influindo, como a geopolítica, as condições climáticas, a capacidade de refino."
A Opep tem uma reserva de exploração de aproximadamente 1 milhão de barris por dia, a maior parte na Arábia Saudita. O ministro de Energia saudita, Ali al Nauami, disse que o seu país está disposto a aumentar a extração para compensar a quebra causada pelo Katrina. Ocorre que o petróleo saudita disponível é mais pesado, o que pode prejudicar a exportação para certos países. O nível de produção da Opep é o maior em 26 anos.