Título: A morte nem precisa mais de executores
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/09/2005, Internacional, p. A17

Quase mil mortos, a maioria afogada nas águas barrentas do Tigre em Bagdá. Uma façanha dos jihadistas? Ou dos soldados americanos? Ou dos policiais iraquianos? Absolutamente. O culpado é o medo. O culpado é um rumor de que homens-bomba estavam misturados aos milhões de fiéis xiitas que iam participar de ato religioso junto ao túmulo de um de seus imãs, Mussa al-Kazem. O pânico foi gigantesco: centenas de peregrinos correram, se pisotearam, arrancaram a balaustrada de uma ponte, foram jogados no rio. Morreram. Se o mesmo rumor tivesse sido espalhado em Paris ou Niterói, não teria matado mil pessoas. Portanto, os verdadeiros culpados se dissimulam por trás do rumor.

Alguns desses culpados gerais podem ser citados: o fanatismo religioso, esta praga que desde as guerras religiosas na Europa, as fuzilarias na Irlanda e as matanças do islamismo acumulou montanhas de cadáveres. Ora, no Iraque, o fanatismo religioso vive uma temporada gloriosa. Os sunitas são ferozes. Quanto aos xiitas, especialistas na adoração dos martírios, seus cortejos fúnebres são imagens do horror: centenas de milhares de peregrinos giram ao redor das mesquitas, rodeiam os túmulos e se flagelam até se tornarem espectros ensangüentados.

Misturada a essa luta religiosa há a luta política que campeia desde que os americanos invadiram o país. Cada uma das duas vertentes do islamismo fez uma escolha política diferente: os xiitas, salvo algumas minorias irredentistas, aceitaram o calendário imposto pelos americanos. Os sunitas, que odeiam igualmente os xiitas e o Ocidente, não aceitaram nem as eleições nem a nova Carta.

Uma terceira razão junta-se ao antagonismo religioso e político: a loucura.

A loucura que envolve esse país desde a guerra: caos, ódios, tribalismos frenéticos, um cotidiano lamentável, crianças mortas, feridas, famintas, corrupção, traições, delações, etc. E por cima dessa desordem infinita, o verdadeiro ator, o verdadeiro "ocupante" do Iraque: a morte que se tornou objeto de um fascínio e, provavelmente, de um júbilo misterioso e repulsivo, de um prazer inconfessável. Ei-la objeto de culto.

O Iraque está envolto há dois anos numa bruma de morte. À medida que a morte ascende em glória, a vida, ao contrário, vai se tornando mais e mais desprezada. Mil mortos! Crianças afogadas! Mulheres! "E daí?", responde a morte.

O drama da ponte em Bagdá é significativo: o que desencadeou o pânico? Um rumor de que dois homens-bomba iam se explodir. Ora, o homem-bomba não é justamente o servidor, o herói e o brasão dessa morte que se tornou a verdadeira senhora do Iraque?

Esses dois homens-bomba não acionaram suas bombas porque eles simplesmente não existiam. Mas o que importa? A morte está tão excitada, é tão hábil, que nem precisa mais de soldados, de servidores, para assassinar mil inocentes. Basta-lhe um homem-bomba imaginário, um homem-bomba virtual.

E o virtual se torna real: mil mortos. O fato é que esse rumor havia sido alimentado, preparado e garantido por um episódio bem real. Pouco antes do corre-corre na ponte, tiros de morteiro já haviam semeado o horror, matando 7 pessoas e ferindo 36. O que provocou uma reação pronta e arrebatada das autoridades políticas: um ministro exigiu a demissão de dois colegas, os ministros da Defesa e do Interior. Não se pode esquecer que esse monstruoso tumulto sanguinário ocorre num momento em que as tensões políticas entre xiitas e sunitas estão no auge.

Com efeito, a nova Constituição - adotada pelos ministros após demorados atrasos e que ainda precisa ser ratificada pelo povo - satisfaz os xiitas moderados que ficam com a parte do leão, mas provoca uma ira extrema dos sunitas que se sentem lesados e dimuinuídos por essa Constituição.

Assim, além do luto inominável, o incidente tem conseqüências políticas maiores, talvez dramáticas. O que impede o Iraque de reencontrar a paz, a harmonia, são justamente essas fragmentações, os rasgões de seu tecido religioso, social e regional, rasgões muito alargados pela ocupação americana.

O massacre de ontem, que será atribuído aos sunitas pelos xiitas, só pode recrudescer, até o delírio, os ódios que se votam essas duas comunidades. E como adotar então a nova Constituição? E como governar um país em guerra de cada um contra todos e todos contra cada um?