Título: 'Para chegar a todos que receberam, só com outro Jefferson'
Autor: Eugênia Lopes e Luciana Nunes Leal
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/09/2005, Nacional, p. A10
Às 22h da quinta-feira, o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPI dos Correios, estava aliviado. Quatro horas antes, os integrantes das CPIs dos Correios e do Mensalão tinham aprovado por unanimidade, em sessão conjunta, seu relatório parcial, em que propõe a cassação de 18 deputados, por envolvimento no esquema de caixa 2 confessado pelo empresário Marcos Valério.
Já livre da responsabilidade de fazer o relatório, Serraglio disse que os partidos deram argumentos inconsistentes para justificar os saques de dinheiro não declarado à Justiça Eleitoral. Também está convencido de que o número de deputados que receberam dinheiro em troca de apoio ao governo é bem superior ao de sua lista. Mas considera quase impossível chegar a novos nomes. "Só se aparecer outro Roberto Jefferson", diz, referindo-se ao deputado responsável pelas denúncias.
Da mesma do forma, ele acredita nas cassações, mas não arrisca um número. "Não sei quantos vão ser cassados. As cassações ocorrerão segundo as circunstâncias do momento em que chegar no plenário."
Seu relatório inclui Jefferson e o ex-ministro José Dirceu (PT-SP). Serraglio acha que os dois se surpreenderam. "Não sei se acharam que eu não fosse pesar, porque tenho cara de bonzinho", disse ao Estado, depois de ver o noticiário sobre a votação do relatório, na sala das CPIs, no Senado.
Houve de fato pagamento de mensalão aos deputados da base aliada?
Não acho relevante o nome que você dê à forma como vantagens econômicas indevidas foram mantidas por parlamentares. Agora que já encerrei o relatório, posso dizer que os vários partidos deram explicações que não são subsistentes. Olhe o PT. Apareceu agora com uma história de que pagaram um advogado para um parlamentar. Se fosse isso, já podiam ter contado há muito tempo. São desculpas que não se sustentam.
E o argumento de José Dirceu, de que o sr. está fazendo juízo de valor e o julgamento dele é político, mais do que baseado em provas?
Concordo que seja um juízo político, mas não só dele, de todos. O que é um juízo político? É você refletir se precisa tomar alguma providência para sanear e depurar uma situação que macule uma instituição. Fica difícil você aceitar essa história de que apenas um cidadão soubesse das coisas. É muita história para dizer que não soubesse. A costura inicial dos cargos, essas referências que o Roberto Jefferson fez. Posso ter meu juízo a respeito do cidadão e do político Roberto Jefferson, mas uma pessoa, por ter determinada conduta, não significa que ela seja cega. Pegue, por exemplo, um estelionatário do Rio. Se ele assiste a um assassinato, ele vai contar a história com detalhes. Não interessa se é estelionatário. O personagem (Jefferson) era líder do partido e depois presidente de um partido de base, fidelíssimo ao governo.
O sr. diz que é muita história para que mais pessoas não soubessem. Isto vale para o presidente Lula?
Não é que eu queira defendê-lo, mas continuo achando que ele é um absenteísta. O Lula queria uma base. Tem a base? Tudo bem. Ele devia ter visto como a base estava sendo construída. O José Dirceu se apresentava como um bom gerente que assegurava um Parlamento dócil sem que fosse questionado com que métodos.
A reação do presidente Lula está à altura da gravidade da crise?
Não saberia dizer. O PT para mim é uma incógnita. Agora aparenta que o presidente está se afastando do PT. Acho que ele tinha de ter tomado providência com relação a essas pessoas, ter mostrado a inconformidade dele com esses tesoureiros, secretários, todo mundo dizendo que não sabe de nada, não viu nada.
Foi muito penosa a elaboração do relatório parcial que recomendou a cassação de 18 deputados?
Não é fácil numa CPI chegar onde nós chegamos, com aprovação unânime de um relatório. Mas também não diria que seja mérito meu ou da CPI. Tenho visão muito clara: para se opor a fatos, é difícil. Fazer discurso contra idéias é fácil, mas contra fatos, não. Eles dizem que a CPI não comprovou os valores totais dos saques. Mas o que interessa se foram R$ 600 mil, R$ 700 mil ou R$ 900 mil?
Que tipo de pressão o senhor sofreu durante a elaboração do relatório?
As pressões se deram através de amigos meus que são parlamentares. Eles iam atrás de amigos meus.
Eles quem?
Não vou citar. Foram muito poucos.
Que nível de pressão o sr. recebeu desses parlamentares?
Nível do chorinho. Não houve ameaças. Chorinho para não pesar demais a caneta.
O que o senhor respondia?
Que relato fatos e fato não é nem pesado nem leve. É fato.
José Dirceu pressionou o senhor?
Não. É incrível. Ele nunca mandou nenhuma mensagem, nem transversa.
O sr. dizia que era amigo de Dirceu.
Não era nem amigo nem inimigo. Sou um desconhecido. Nunca o conheci. O filho dele saiu candidato na cidade dele e minha turma lá o apoiou. Nunca fui a um comício dele, eu acho.
E da parte de Roberto Jefferson, houve algum recado, algum aviso?
Não. Não sei se eles se surpreenderam achando que eu não fosse pesar, porque eu tenho cara de bonzinho.
O relatório parcial já foi feito, não está mais na alçada da CPI. O risco de acabar em pizza ainda existe?
Eu queria ter uma noção se Roberto Jefferson está conseguindo passar uma imagem de herói na população. Aquelas bobagens que aconteceram na nossa comissão, gente de nome elogiando a atitude dele... Estava tudo hoje (quinta-feira) no programa do PTB na televisão.
Os processos no Conselho de Ética vão andar?
Qual partido não vai querer esta oportunidade histórica de representar contra os deputados no conselho? Acho que no conselho não dá pizza. Vocês não dão trégua, não vai dar pizza.
O dano para o Congresso e os parlamentares em geral é recuperável?
Acho que começa a recuperar um pouco. Acho que em duas semanas o Roberto Jefferson está cassado. Só não é semana que vem porque não tem votação. Pedido de cassação tranca a pauta, tem prioridade até sobre medida provisória.
Por que o senhor excluiu da lista dos que devem ser cassados o senador Eduardo Azeredo, do PSDB de Minas Gerais? Não foi para poupar o PSDB? Na campanha para governador de 1998, ele recebeu dinheiro não declarado de Marcos Valério.
Porque a prática do ato do Azeredo não se deu no mandato parlamentar. Isso vai ser investigado, mas não na CPI.
No ano que vem muitos dos senhores estarão tentando a reeleição. Será uma eleição diferente depois de tantos escândalos?
Veja, o Conselho de Ética tem 90 dias para os processos. As cassações do relatório vão acontecer no fim deste ano ou no ano que vem. Vai depender da agilidade dos relatores. Acho que o PT vai sofrer mais. Os eleitores do PT são eleitores partidários. Os outros eleitores não são.
Dos 18 deputados do relatório, quantos o sr. acredita que vão perder os mandatos e quantos vão se salvar?
Não digo isso. Acho que o deputado Rodrigo Maia cometeu um equívoco. Ele foi à sessão defender o Roberto Brant (PFL-MG). Todos acham então que podem defender o companheiro de partido. Não sei quantos vão ser cassados. É um juízo político. As cassações ocorrerão segundo as circunstâncias do momento em que o processo chegar no plenário. Um fato que acontece no dia pode mudar. Historicamente, acho que a cassação de 18 mandatos nunca aconteceu. Mas se você achar que 150 ganhavam mensalão, são poucos.
O senhor acha que é possível chegar a todos esses que recebiam dinheiro para apoiar o governo?
Só se houver um fato novo, outro Roberto Jefferson. Digamos que o líder de um partido vai ser cassado. Ele tem a lista de todos. Pode virar canhão, botar o nome de quem quiser. Mas não haverá provas. Ninguém pegou dinheiro e levou para o banco. É difícil aparecer.
A sensação que se tem é que o relatório parcial foi feito pelo senhor e o deputado Ibrahim Abi-Ackel apenas subscreveu. Foi assim?
Graças a Deus, ele não fez nada. Apenas sugeriu algumas mudanças. E ele é bom de português também.
O sr. substituiu "crime" por "ilícito".
Foi idéia dele. Ele fez algumas considerações importantes para o texto.