Título: PT impede identificação de cúmplices citados por Delúbio
Autor: Mariana Caetano
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/09/2005, Nacional, p. A6

Impedido pela Justiça de expulsar o ex-tesoureiro Delúbio Soares, o Diretório Nacional do PT derrubou por conta própria, na reunião de sábado, proposta da esquerda para que fossem identificados os dirigentes que montaram com ele um núcleo paralelo de comando do partido, conforme apontou o relatório da Comissão de Ética. O documento, apresentado sábado, atesta que Delúbio não agiu sozinho. O relatório informa que "foi constituído um núcleo que substituiu as instâncias do partido nas decisões administrativas e financeiras". Esse núcleo "manipulou as instâncias do partido para homologar decisões que já tinham sido tomadas paralelamente". O documento não informa quem fazia parte do núcleo, mas Delúbio teria citado nomes em seu depoimento. A íntegra da oitiva não foi lida na reunião, sábado, nem disponibilizada.

"Apresentei uma proposta para que fossem informados os nomes apresentados por Delúbio, que a comissão revelasse, desses dirigentes, quem foi ouvido ou não e que, afinal, todos fossem ouvidos", disse o secretário de Movimentos Populares do PT, Jorge Almeida, da Ação Popular Socialista. A proposta foi rejeitada por ampla maioria com base no argumento de que o relatório está impugnado pela liminar da juíza Carmen Lúcia Silva, da 23.ª Vara Cível de São Paulo. "Vou continuar cobrando que a comissão e o PT mostrem, de fato, quem agiu com Delúbio", afirmou Almeida.

Para o presidente interino do PT, Tarso Genro, o diretório não teria como aprovar o pedido de Almeida. "Em função da decisão judicial, o relatório terá de ser refeito", afirmou. "A proposta deve incidir sobre o novo relatório." Ele se recusou a comentar um documento "que não tem eficácia", mas lembrou que a resolução do diretório sobre a liminar obtida por Delúbio atesta que a Comissão de Ética "trabalhou de maneira correta" e apresentou relatório "suficientemente fundamentado" para decidir sobre a expulsão.

Questionado sobre o real interesse do partido em descobrir todos os implicados no esquema de caixa 2 e outras irregularidades que arrastaram o PT e o governo Lula para sua pior crise, Tarso insistiu que a legenda "não tem aparato para fazer uma investigação policial".

Cabe agora à comissão de sindicância, segundo o presidente, aprofundar as investigações. Por 30 votos a 23, o Diretório Nacional deu 30 dias para que a comissão apresente relatório sobre todos os filiados envolvidos no esquema - especialmente sobre nove deputados, entre eles o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu (SP), o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (SP) e o ex-líder do governo na Câmara Professor Luizinho (SP).

Para Tarso - que acaba de formalizar um movimento pela "refundação" do PT -, encontrar os responsáveis pela crise está na base "de todo o processo político que ocorre hoje no partido". A legenda terá de encontrar "o nível exato" de responsabilidade de cada um no lamaçal.

"O partido tem de saber as responsabilidades para tratar as pessoas com Justiça", afirmou o presidente. Tarso já atribuiu a Dirceu "responsabilidade política" na crise e desistiu de representar o Campo Majoritário nas eleições internas porque o ex-ministro e outros implicados foram mantidos na chapa do Campo para o Diretório. A proposta da esquerda de submeter Dirceu e outros envolvidos à Comissão de Ética do PT, que tinha apoio de Tarso, foi derrotada no sábado. Por enquanto, serão investigados só na comissão de sindicância, composta apenas por integrantes do Campo. Pertencem ao Campo Majoritário quase todos os envolvidos