Título: MST rompe trégua com Lula e lança 'setembro vermelho'
Autor: José Maria Tomazela
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/09/2005, Nacional, p. A10

PRESIDENTE PRUDENTE - O Movimento dos Sem-Terra (MST) inicia esta semana uma nova jornada de luta pela reforma agrária, com invasões de fazendas em todo o País. Haverá ainda manifestações e atos de protesto contra a política econômica e pela reforma política, com a ocupação de agências bancárias e repartições públicas. As ações não se restringirão ao 7 de Setembro, quando o MST participa do Grito dos Excluídos, organizado em conjunto com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), CUT e outras entidades. Está previsto um número recorde de invasões, este ano, no "setembro vermelho". O mês foi escolhido para concentrar as ações, geralmente realizadas em abril, quando os sem-terra lembram o massacre ocorrido em Eldorado dos Carajás, em 1996, quando morreram 19 sem-terra em confronto com policiais militares. Em abril deste ano, o MST se preparou para a marcha nacional pela reforma agrária, de Goiânia a Brasília, realizada no mês seguinte.

Os dirigentes do movimento avaliaram que o momento é oportuno para desencadear as ações, que representarão o fim da trégua dada ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após as negociações que encerraram a marcha.

Disposto a recuperar-se da crise política que o deixou praticamente imobilizado, após as denúncias do mensalão, o governo estaria empenhando numa agenda de realizações e pode acelerar a reforma agrária. Os líderes avaliaram que as invasões não prejudicam o presidente e podem dividir a atenção da opinião pública, focada no cenário político de Brasília.

A retomada das atividades de campo é vista como uma forma de unir a militância. Acusado de estar se tornando uma organização "de gabinete", o MST vê crescerem as dissidências. Sábado, o líder José Rainha Júnior reuniu 1.200 militantes no Pontal do Paranapanema, à revelia dos dirigentes, e anunciou uma jornada própria de invasões de 26 a 30 de dezembro. Na região, duas fazendas estão ocupadas - a Santo Expedito, em Teodoro Sampaio, e a Aprumado, em Rancharia.

O presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antonio Nabhan Garcia, lamentou o anúncio da escalada de invasões, no momento em que os agricultores preparam-se para iniciar o plantio da safra de verão, a maior do ano. Segundo ele, muitos produtores podem deixar de plantar, por conta do risco. Para Nabhan, o MST busca "um mártir" para desviar as atenções dos escândalos de corrupção no governo do PT.