Título: Salários tiveram o melhor desempenho em 10 anos
Autor: Marcelo Rehder
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/09/2005, Economia & Negócios, p. B3

Os reajustes salariais negociados no primeiro semestre deste ano tiveram o melhor resultado em 10 anos de acompanhamento dos acordos e convenções coletivas. Levantamento nacional divulgado ontem pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) mostra que 84% dos acordos e convenções firmadas no período garantiram reajustes iguais ou superiores à inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), apurado pelo IBGE, nos 12 meses anteriores à cada data-base.

Segundo o Dieese, as negociações tendem a apresentar desempenho parecido ou até melhor neste segundo semestre, que concentra as campanhas das categorias mais organizadas do País, como metalúrgicos, bancários, petroleiros e químicos.

Das 347 negociações analisadas no primeiro semestre, 228 (ou 65,7%) resultaram em reajustes acima do INPC. Os trabalhadores conseguiram zerar as perdas com a inflação em 62 acordos (17,9%). Em apenas 57 acordos (16,4%), os reajustes ficaram abaixo do INPC.

"Podemos dizer que foi o melhor desempenho para o período desde o início do Plano Real (julho de 1994), quando o governo acabou com a política que garantia a reposição automática da inflação para os salários", afirma Clemente Ganz Lúcio, diretor-técnico do Dieese. A entidade faz o levantamento sistemático dos resultados das negociações salariais desde 1996.

Depois de vários anos de ambiente desfavorável, de produção em baixa e desemprego, as negociações, em 2004 e agora, são realizadas num cenário favorável à concessão de aumentos reais, com crescimento da produção, do faturamento e das contratações nas empresas.

"A inflação é descendente e não há aposta em sentido contrário no curto prazo. Este resultado ainda carrega expectativa de melhora na economia. Os dados apontam para um crescimento da economia superior a 4% este ano. E todas as indicações são no sentido de que 2006 deverá ser melhor do que 2005", diz Lúcio.

Até agora, o melhor resultado das campanhas salariais num primeiro semestre havia sido alcançado no ano passado, quando 47% dos acordos resultaram em aumentos reais e 32% em reposição integral da inflação passada, totalizando 75,7% de acordos favoráveis aos trabalhadores. No entanto, o desempenho no primeiro semestre de 2005 foi ainda melhor.

RESULTADOS

Os trabalhadores da indústria foram os que conseguiram melhores resultados - 77,9% tiveram reajuste acima da inflação.

No comércio, o porcentual foi de 72,5% e no setor de serviços, de 53,1%. "Esse desempenho era esperado, já que a economia do País cresce puxada pela indústria", observa José Silvestre de Oliveira, supervisor do escritório paulista do Dieese.

Entre as categorias que conseguiram aumento real este ano estão os trabalhadores da construção civil de São Paulo, cujo reajuste foi de 8,12% em maio, ante inflação acumulada em 12 meses de 6,61%.

O levantamento ainda mostra queda no parcelamento dos reajustes, que usado em apenas 5% dos acordos, ante 8% no ano passado. Também diminuíram as ocorrências de reajustes escalonados (caracterizados por diferenciação de índices conforme a faixa salarial), de 11% para 7%. A concessão de abonos correspondeu a menos de 4%, ante 8%.