Título: Passeata em SP ataca governo e políticos
Autor: Rodrigo Pereira
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/09/2005, Nacional, p. A12

O Grito do Silêncio, manifestação política realizada ontem no centro de São Paulo, foi marcado por faixas contra o governo, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e contra o PT. Promovida pela Força Sindical e entidades civis como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) e Associação Comercial de São Paulo (ACSP), sob a denominação Vamos Limpar o Brasil - Eu Quero a Verdade, a manifestação não teve discursos, nem palavras de ordem nos carros de som, como forma de garantir o caráter suprapartidário. Mas era nítido o tom antigovernista. Narizes de palhaço e bandeiras de sindicatos e partidos foram distribuídos aos cerca de 2.500 manifestantes - segundo a Polícia Militar; a Força Sindical estimou em 10 mil. Houve passeata da Praça da Sé ao Teatro Municipal.

Deputados, líderes sindicais e empresariais seguraram faixas e cantaram os Hinos da Independência e Nacional junto aos manifestantes, seguindo o script da organização. Na hora das entrevistas, atacaram o governo e os políticos petistas.

"É um ato da sociedade contra a corrupção, sociedade que está indignada com a situação", disse o líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman. "Contra a corrupção que existe no governo Lula", retificou.

"O principal responsável pela crise chama-se governo Lula", repetiu algumas vezes o presidente do PPS, deputado Roberto Freire (PE). "Você acha (que a crise) é fruto só do Delúbio (Soares)?", indagou, para concluir que "a bandalheira toda foi fruto do governo do PT, uma relação fisiológica que resultou no mensalão".

Um eventual impeachment de Lula não foi descartado. Freire disse que o presidente "já praticou crime de responsabilidade por ação e omissão", mas que no momento não há clima político para pedi-lo. O presidente da OAB-SP, Luiz Flávio Borges D¿Urso, defendeu "cadeia" para quem tiver a culpa comprovada.

"Não se pode admitir a impunidade no poder público." E prometeu voltar às ruas ou tomar medidas legais se houver acordão no Congresso. "Nós estamos em posição de vigilância."

Já o presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, definiu a manifestação como uma reação ao "clima de corrupção no governo", julgando ser exagerada a existência de "três CPIs para apurar a mesma coisa: corrupção".

O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) disse que "o governo Lula tenta enganar" e que o Grito foi uma resposta a isso, "uma luta contra a mentira". Paulo Skaf, presidente da Fiesp, viu o ato como uma resposta da sociedade, "que não aceita corrupção e quer os responsáveis punidos".

PARALISIA

Pequenos grupos fizeram à sua maneira as críticas, como 5 metalúrgicos de Guarulhos, 4 vestidos de Irmãos Metralha com os nomes de José Dirceu, José Genoino, Delúbio e Marcos Valério no pescoço, abraçados ao colega de barba com terno e faixa presidencial, em alusão a Lula.

No final, D¿Urso leu o manifesto produzido por mais de 40 entidades. O texto destaca que essa é "a maior crise política" da história do País e cobra "transparência e ética na política", além de revelar o temor de que "mais cedo ou mais tarde a economia" seja afetada pela "paralisia" do governo.