Título: A timidez do Copom
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/09/2005, Notas e Informações, p. A3
O Brasil se mantém como campeão mundial dos juros reais, muito acima do segundo colocado, depois da redução anunciada na quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Quatro meses de inflação em queda acelerada, e até de deflação em alguns índices, foram insuficientes para quebrar a timidez da autoridade monetária. O corte de 0,25 ponto porcentual na taxa básica, para 19,5%, foi meramente simbólico. Nada simbólica, no entanto, é a taxa real de cerca de 14% ao ano que o Tesouro ainda vai pagar aos seus credores. Na China, vice-campeã dos juros altos, o custo básico do dinheiro, em termos reais, não passa de 6,3%. A decisão do Copom confirmou a previsão da maior parte dos economistas ouvidos pela imprensa nas últimas duas semanas. Apesar disso, muitos empresários e analistas deixaram transparecer um sentimento de frustração. Absurdo? Nem tanto. No fundo, muita gente com certeza mantinha a esperança de um gesto menos tímido e mais animador.
Não se imaginava um lance de audácia. Um corte de 0,5 ponto de porcentagem também seria simbólico, mas teria um efeito psicológico muito mais positivo. Valeria como um tiro de largada para uma nova etapa.
Seria especialmente oportuno depois dos sinais de acomodação da economia e das últimas pesquisas sobre o humor dos consumidores. Ainda que esse humor tenha sido afetado pela crise política, a expectativa de um maior desaperto financeiro seria um bom fortificante para a economia.
O Comitê de Política Monetária indicou, em nota, que os próximos cortes da taxa básica de juros também serão moderados. Até a semana passada, muitos economistas projetavam para o fim do ano uma taxa básica de 18%. Agora, há quem classifique essa projeção como muito otimista. Até dezembro, segundo esses técnicos, o Copom poderá reduzir os juros até 18,5%, talvez 18,25%.
Cabe ao Tesouro o custo mais evidente dessa política. Desde setembro do ano passado, a dívida pública aumentou R$ 21 bilhões por causa da alta de juros, segundo estimativa do economista Raul Velloso, especialista em contas públicas.
Para enfrentar seus pesados encargos financeiros, o Tesouro tem de economizar noutros itens, produzindo um elevado superávit primário. Nem todos os cortes são feitos nos gastos dispensáveis. É difícil evitar que essa economia acabe afetando as despesas mais necessárias ao crescimento econômico.
Não basta, no entanto, apontar os custos de uma política de juros altos para provar que as autoridades deveriam evitá-la. Todas as políticas têm custos, mesmo as que distribuem benefícios com muita generosidade. Também não tem sentido criticar a política de juros sem apontar uma alternativa para o combate à inflação.
É outro o caminho de uma discussão razoável. Para alguns críticos, a meta de inflação foi fixada com pouco realismo. Pode ter sido, mas também é verdade que a inflação brasileira tem sido mais alta que a da maior parte das economias em desenvolvimento.
Outros argumentaram que os juros subiram mais que o necessário para garantir uma inflação próxima da meta. Este ponto de vista é muito mais defensável. Há quem diga, além disso, que o Copom poderia ter iniciado a redução mais cedo sem comprometer seu objetivo. É difícil contestar esse ponto de vista, especialmente quando se leva em conta que as projeções do IPCA vêm caindo velozmente há 18 semanas.
De toda forma, o Banco Central cumpriu a promessa de domar a inflação. Impôs ao País um sacrifício maior que o necessário, muito provavelmente, mas enfim começa o caminho de volta. Pelo menos um banco anunciou, logo depois da reunião do Copom, redução de juros em todas as linhas de crédito. Poderia tê-lo feito há mais tempo, mas a novidade, seja como for, é positiva.
Resta torcer para que o Comitê de Política Monetária, a partir de outubro, seja menos tímido. Mas é oportuno lembrar que seu trabalho teria sido mais fácil, se o governo tivesse mostrado maior ousadia no corte de gastos. Um superávit primário maior teria sido possível desde o ano passado, como já mostraram vários economistas. Também esta discussão é indispensável.