Título: Proposta do G-4 de aumentar Conselho de Segurança derrapa
Autor: Paulo Sotero
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/09/2005, Internacional, p. A20

A viabilidade do Grupo dos Quatro, uma parceria de Brasil, Índia, Japão e Alemanha com o objetivo comum de tornarem-se membros permanentes de um Conselho de Segurança das Nações Unidas mais representativo, será fortemente testada nas próximas semanas e meses, depois do fracasso inicial da estratégia de forçar o início de reforma na cúpula da ONU iniciada ontem. Sem mencionar o G-4, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou a defesa brasileira da expansão do conselho como parte de uma reforma mais ampla da ONU. "É inadmissível que o Conselho de Segurança continue a operar com um claro déficit de transparência e representatividade", afirmou Lula ao discursar numa reunião especial dos chefes de Estado e governo dos atuais 15 membros do órgão sobre terrorismo, que aprovou uma resolução proposta pela Grã-Bretanha autorizando a imposição de sanções a organizações ou governos que fizerem incitação ao terrorismo.

Os chanceleres do G-4 reúnem-se hoje na sede da missão da Índia para fazer um balanço e definir opções à luz das dificuldades que encontraram até agora. Um dos fatos novos que terão de pesar é a declaração feita ontem pela China, indicando que considera o G-4 um veículo inaceitável no processo de reforma do conselho porque ele inclui o Japão, com quem tem profundas pendências históricas e não quer dividir o poder de representação regional.

Único país asiático entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, a China foi um dos que mais se empenharam em impedir a inclusão do tema na esvaziada agenda da cúpula.

Respondendo a uma pergunta sobre a pretensão da Índia a um assento permanente no organismo, o embaixador chinês na ONU, Sun Yuxi, afirmou ontem que seu governo "apoiaria plenamente" se a Índia apresentasse sua candidatura "como um dos maiores países em desenvolvimento do mundo".

"Contudo, a Índia é parte do G-4, que inclui entre outros o Japão, que não é qualificado (para um assento permanente)", declarou. Sun Yuxi não esclareceu se a China passaria a apoiar a entrada da Índia no conselho se o país deixasse o G-4.

A provável mudança de governo nas eleições na Alemanha, neste domingo, introduz uma nova incógnita sobre o interesse de Berlim no G-4.

Há também dúvidas sobre a posição do Japão em insistir na parceria com o Brasil. Tóquio contribui com quase 20% do orçamento da ONU, menos apenas do que os EUA, com 22%, e tem cacife próprio na discussão sobre a reforma da instituição.

Embora enfrente o o veto da China, o Japão é também o único país que conta até agora com o apoio explícito dos Estados Unidos para ingressar como membro permanente num conselho ampliado.

Segundo fontes diplomáticas, o Japão poderá também encontrar motivos para se desinteressar do G-4 numa recente declaração do ministro de Relações Exteriores Celso Amorim, na qual o chefe da diplomacia brasileira manifestou-se "decepcionado" com a China, mas acrescentou que Pequim poderia ter permitido o início do processo de reforma do Conselho de Segurança e, aí sim, bloqueado o Japão. Por motivos óbvios, a declaração foi recebida com perplexidade e desagrado pelos japoneses.

Amorim afirmou ontem que "não teremos uma reforma ideal" no Conselho de Segurança, mas disse que está "otimista" sobre as chances de progresso nas conversações até o fim do ano.

BUSH

Em seu discurso, o presidente dos EUA, George W. Bush, pediu a todos os países que colaborem para a difusão da democracia no Iraque e no resto do mundo, para o fim das barreiras comerciais e pelo empenho no combate ao terrorismo.

"O mundo é mais promissor quando trabalhamos juntos", afirmou Bush, que pediu ainda a facilitação do julgamento e extradição de pessoas que adquiram material nuclear para fins terroristas.