Título: Greve atinge os Correios
Autor: Renato Cruz
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/09/2005, Economia & Negócios, p. B8

Os Correios, que viraram até nome de CPI, resolveram jogar duro com os funcionários, que entraram ontem em greve, em quase todo o País. De acordo com informações dos sindicatos, houve adesão de cerca de 80% dos trabalhadores. Segundo a empresa, somente 10,75% dos 108.350 funcionários participaram da paralisação. "A direção está sendo intransigente", afirmou Golbery Valoria, integrante do Comando Nacional de Negociação dos Trabalhadores dos Correios e diretor do sindicato do Rio Grande do Sul. "O dinheiro negado aos funcionários vai para a roubalheira que acontece nos Correios." As atividades mais afetadas foram a distribuição e o transporte, o que pode gerar atraso na entrega das correspondências. Já houve um tempo que os Correios eram sinônimo de serviço público de excelência. Hoje, em meio às denúncias de corrupção e superfaturamento de contratos, os trabalhadores sentem-se desrespeitados, com piso menor que o restante da administração pública e sucessivos reajustes abaixo da inflação. "Nosso salário inicial é de R$ 448, enquanto outras empresas públicas têm piso acima de R$ 900", afirmou Valoria.

Os trabalhadores reivindicam 47,17% de reajuste, piso de R$ 931,75, vale-refeição de de R$ 20 (atualmente, são R$ 13) e cesta básica de R$ 200 (hoje é de R$ 76). A empresa ofereceu o IPCA de 6,57% mais 1,34% hoje, mais 3,9% em janeiro, o que dá um total de 11,9%, além de um abono de R$ 600. No ano passado, o aumento ficou em cerca de 23%. Segundo Valoria, a categoria acumula perdas de 52% desde 1994, que também precisam ser reposta.

Somente os sindicatos de Uberaba e Santos não aderiram à greve. Mas, mesmo assim, recusaram a proposta da empresa. Os Correios contrataram 2 mil funcionários temporários para fazer o trabalho dos grevistas, o que é ilegal, de acordo com a Federação Nacional dos Trabalhadores da Empresa de Correios e Telégrafos (Fentect). A empresa decidiu ajuizar o dissídio no Tribunal Superior do Trabalho (TST).

Em São Paulo, houve manifestação no vão livre do Masp, na Avenida Paulista. Eles seguiram em passeata pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio até a Praça da Sé. "Estamos em 5 mil pessoas", afirmou o secretário geral do sindicato de São Paulo, Carlos Alberto Pereira da Silva. De manhã, os policiais usaram gás pimenta contra trabalhadores dos Correios em Vila Maria e Vila Leopoldina. "Os Correios gastam em maquinário importado e não querem investir no trabalhador", protestou Valoria. "Queremos sentar para conversar."