Título: Tesouro prepara emissão soberana em reais
Autor: Isabel Sobral e Adriana Fernandes
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/09/2005, Economia & Negócios, p. B6

O Tesouro Nacional informou ontem que fará uma captação de recursos no exterior emitindo títulos denominados em real. Será a primeira vez que o governo brasileiro oferecerá aos investidores estrangeiros um papel com rendimento baseado na moeda nacional. Atualmente, o Brasil tem títulos atrelados ao dólar, ao euro e ao iene. O secretário-adjunto do Tesouro, José Antônio Gragnani, disse ao Estado que o lançamento do novo título deverá ocorrer em breve, mas não antecipou data ou o volume da captação.

Segundo o secretário, uma operação como esta abrirá um novo acesso ao mercado externo para o Brasil, além de possibilitar a diversificação da carteira externa de empréstimos. 'Vale muito a pena partir para isso', disse.

De acordo com Gragnani, há demanda internacional pelos papéis da dívida brasileira em reais porque no momento há uma grande disponibilidade de recursos de investidores buscando aplicações rentáveis. Ele observou que a taxa de juro dos Estados Unidos ainda é considerada baixa pelos investidores, o que aumenta a procura por papéis de países emergentes, que proporcionam rendimentos mais altos. O Brasil, com a taxa básica de juro em 19,75% ao ano, tem lugar de destaque neste cenário.

Gragnani disse que uma das vantagens desse tipo de operação para o País é que ela favorece a redução do risco cambial da dívida externa, já que ao fazer uma emissão em moeda local o risco passa a ser atrelado às condições da economia nacional. De outro lado, para o investidor a vantagem, além do rendimento maior, é a diversificação do portfólio de investimentos.

Uma operação em reais feita pelo governo também servirá de referência ('benchmark') na fixação de custos ou prazos para operações semelhantes que vierem a ser feitas por empresas brasileiras.

MAIS FORÇA

No final do ano passado o Banco Votorantim e o Banco do Brasil fizeram as primeiras captações externas em reais. O Votorantim captou a R$ 50 milhões em eurobônus, enquanto o BB conseguiu R$ 200 milhões.

Embora essas colocações tivessem sido bem aceitas, analistas observaram que faltava uma captação soberana (do governo) para balizar outras iniciativas privadas.

Na avaliação da equipe econômica, há demanda externa suficientemente grande para absorver papéis também da dívida interna brasileira. Por isso, uma das estratégias que o governo vem estudando é desburocratizar as regras de acesso do investidor estrangeiro à compra de títulos locais.

O anúncio feito ontem foi a terceira decisão importante em relação ao gerenciamento da dívida externa anunciada nesta semana pelo Ministério da Fazenda, justamente num momento em que crescem no mercado rumores de que o País terá em breve uma melhoria de classificação de risco pelas agências de rating.

Na segunda-feira, o governo informou que recomprará US$ 1,2 bilhão em títulos C-Bond que ainda estão em poder do mercado financeiro. No dia seguinte, anunciou a captação externa de US$ 1 bilhão por meio da emissão de um bônus com vencimento em 2025