Título: Disputa preocupa Europa
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/09/2005, Internacional, p. A16

"Quando a Alemanha se resfria, toda a Europa tosse". A desastrosa eleição de domingo na Alemanha que deixou frente à frente duas "feras" enfraquecidas, cheias de ferimentos, mas proporcionalmente ferozes (Gerhard Schroeder, socialista, e Angela Merkel, conservadora), mergulha a Alemanha na confusão e põe uma pedrinha no sapado da União Européia. A Europa já andava claudicando por conta da inércia econômica e da rejeição pelo povo francês, num referendo sobre nova Constituição da UE.

Bem, ela corre agora o risco de claudicar mais. Logo, como tomar posições européias fortes se a Alemanha, um dos Estados mais poderosos do continente, continua se debatendo para saber se é de "direita" ou de "esquerda". Um exemplo. No fim outubro haverá uma cúpula européia para definir o modelo social europeu e as reformas necessárias para enfrentar a "globalização". Outro obstáculo: em 3 de outubro, a Europa terá de decidir sobre a candidatura dos turcos. Ora, na Alemanha, Schroeder é a favor e Merkel contra.

Essa indefinição ocorre no momento crucial em que a Europa procura desbravar novos caminhos. O inglês Tony Blair esperava que as eleições alemãs lhe permitiriam influir no destino da Europa num sentido mais afinado com seus tropismos.

Blair já andava farto dessa aliança entre a França e a Alemanha. Ele não a suportava por várias razões. Primeira: o "motor franco-alemão" marginalizava a Grã-Bretanha. Segunda: Schroeder, com seu amigo Chirac, havia erguido a bandeira da revolta contra os Estados Unidos na guerra do Iraque.Terceira: Blair gostaria muito que os alemães adotassem, em matéria de economia, os caminhos do liberalismo tão caros à Inglaterra depois de Thatcher. Resultado: Blair tinha pressa de que esse "cachorro morto" que era Schroeder aos olhos da imprensa inglesa, estivesse de fato morto. Mas esse cachorro não vai bem mas não está completamente morto. E Merkel, que Blair tanto gostaria de ver em Berlim, não está completamente ali.

Na França, o caos alemão suporta a mesma análise, mas ligeiramente deslocada. O presidente Jacques Chirac, embora conservador, é muito próximo de Schroeder, de suas linhas diplomáticas, econômicas e sociais. E, paradoxalmente, Chirac não é muito amigo da mulher conservadora que é Merkel.