Título: 'Elitezinha' acusada por Severino tem 60 deputados
Autor: Luciana Nunes Leal
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/09/2005, Nacional, p. A6

Cúpula, alto clero, força motriz, cabeças. São várias as definições para o conjunto de 60 deputados que tomam as decisões mais importantes da Câmara. Para Severino Cavalcanti, forçado a abrir mão da presidência da Casa e do mandato para não ser cassado, o nome é "elitezinha". Foi ela, disse Severino, a responsável por sua derrocada. O seleto grupo de oposicionistas e governistas é formado pelos integrantes da Mesa Diretora, líderes de bancadas, presidentes das comissões permanentes mais importantes, alguns presidentes de partidos. Eles traçam a agenda do Legislativo, decidem o que será posto em votação, definem regras e procedimentos. Ontem mesmo, foi depois de muitas conversas entre eles que o Colégio de Líderes, formado apenas pelos que comandam bancadas, fechou as regras para a eleição do sucessor de Severino.

Os poderosos da Câmara estão sempre circulando pelo Salão Verde, articulando em pequenas rodas. Comandam frentes parlamentares sobre diferentes temas e, em geral, representam o Parlamento nas viagens ao exterior. Vez ou outra, principalmente os governistas, são convidados a acompanhar o presidente da República em viagens oficiais. Destacam-se nas CPIs e audiências públicas disputadas. Têm presença constante na mídia, dão entrevistas, escrevem artigos. Uma espécie de diretoria no universo de 513 deputados.

"Ninguém foi coroado. São escolhidos por suas bancadas e pela Casa, são votados para as funções que ocupam", diz o líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman (SP).

"Eu diria que são parlamentares que fazem da política sua atividade principal. São parlamentares de todos os partidos que se dedicam mais ao estudo dos problemas brasileiros no Legislativo. Eu vivo disso", afirma o líder da minoria, José Carlos Aleluia (PFL-BA). "Severino não saiu pela vontade de um grupo. Saiu porque cometeu um ato ilícito."

IGREJINHA

Quando assumiu a presidência, Severino preferiu outro termo para se referir à elite parlamentar: "Chega dessa história de igrejinha", afirmou, na chegada ao comando. Na saída, anteontem, discursou: "A elitezinha, essa que não quer jamais largar o osso, insuflou contra mim seus cães de guerra."

Nos sete meses como presidente, Severino foi o herói do baixo clero, a turma de deputados pouco expressivos e desconhecidos da maioria da população. No comando da Casam, porém, ele próprio fez parte do grupo que tanto critica.

"Severino não tinha clareza da importância do cargo e, portanto, não tinha preparo para exercê-lo", diz o analista político Antônio Augusto de Queiroz, diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Todos os anos, o Diap publica "Os Cabeças do Congresso Nacional", seleção dos cem deputados e senadores que se destacam em cinco categorias: debatedores, articuladores, formuladores, negociadores e formadores de opinião. A última seleção tinha 71 deputados e 29 senadores. Esse grupo elege os dez mais influentes do Congresso. Aleluia e Goldman estavam nessa seletíssima lista, liderada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Severino figurou em quinto lugar, com 32 votos.

'ELITE DO BEM'

Para o cientista político Marcos Figueiredo, do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), ao citar a elitezinha, Severino recorreu a uma forma pejorativa para falar "dos homens de bem do Congresso", não necessariamente dos que comandam as decisões. Ele acha que o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) personifica essa elite do bem. "Ele foi o primeiro. Desmoralizou Severino na frente de todos."

Gabeira não está entre os cem destaques do Diap. Não é líder, não está em nenhuma CPI, não preside comissão disputada. Mas, há duas semanas, enfrentou Severino no plenário, criticando-o duramente por ter defendido penas leves para os deputados acusados de corrupção. Com todas as letras, disse que Severino não podia continuar no comando da Casa. A partir daí, cresceu o movimento para denunciar Severino ao Conselho de Ética.

Gabeira acredita que Severino, ao falar em elitezinha, referia-se principalmente aos parlamentares que tanto criticou, por dominarem as viagens ao exterior. Depois que assumiu, Severino passou a distribuir as viagens também entre companheiros do baixo clero. O deputado vê, por outro lado, uma referência à elite intelectual da Câmara. "Não vamos prosseguir no elogio da ignorância. O Severino e o Lula citam suas origens e a ausência na escola para justificar suas situações. Também não freqüentei universidade e sou de família pobre. O que distingue é ser ou não curioso, buscar ou não conhecimento. Lula e Severino não são curiosos. É o conhecimento que vai fazer o País e as próprias pessoas saírem do buraco."

Outro caminho para chegar à elite do Parlamento é a linhagem familiar. Aos 26 anos, o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) é o melhor exemplo. Está no primeiro mandato, mas se tornou um dos mais destacados parlamentares da CPI dos Correios. Além das apurações, tem acalorados embates com governistas. O líder do PFL na Casa, Rodrigo Maia (RJ), filho do prefeito Cesar Maia é outro exemplo.