Título: Presidente ignora miséria e promete assentamento de ´dar inveja em inimigos´
Autor: Leonencio Nossa
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/09/2005, Nacional, p. A17
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu ontem as críticas à precariedade do assentamento Lulão. Diante das famílias que ainda aguardam a entrega formal da posse de terra e vivem em barracas de lona e palha, ele ironizou: 'Certamente, alguém vai dizer: o presidente foi a um assentamento que não tem TV a cabo, telefone celular e casas com varanda e rede para se espreguiçar. Nem podia ser, o importante é medir a qualidade desse assentamento.' Em janeiro, quando esteve no Lulão pela primeira vez, o presidente prometeu voltar para dar 'cidadania' às famílias.
Até a noite de ontem, os assentados não tinham água potável, energia elétrica, escola nem cestas básicas do programa Fome Zero. Crianças e adultos vivem em estado de miséria. 'Só estou aqui ´zoiando´ os carros passando pela estrada asfaltada, não vai ter problema de escoamento de produção', disse o presidente.
Em seguida, admitiu que falta tudo no assentamento, prometendo uma terceira visita para inaugurar casas com luz. 'Vamos fazer uma coisa de qualidade para dar inveja aos adversários da reforma agrária.' Ele agradeceu às famílias pela paciência.
'Estava dizendo para o governador da Bahia (Paulo Souto): feliz é o país que tem o povo que nós temos, porque ficar o tempo que vocês ficaram embaixo do encerado...' Ele pediu que Tertuliano Nascimento, de 82 anos, e Anita Maria de Jesus, de 64 anos, se aproximassem para uma 'entrevista', numa crítica aos jornalistas.
'Quero que a senhora diga sobretudo aos companheiros da imprensa o que significa esse lote na sua vida', disse. Anita respondeu: 'Se morresse e não tivesse um pedaço de terra, não me salvava. Para mim, a melhor coisa do mundo foi Lula ganhar a Presidência.'
SOBREPREÇO
Ontem, o presidente do Incra, Rolf Hackbart, demonstrou contrariedade com informação divulgada pelo Estado de que o órgão pagou R$ 5 milhões a mais por terras para assentar as famílias do Lulão.
Cobrado por assessores próximos do presidente, ele tentou demonstrar que o Incra não comprou terras a preços inflacionados. Hackbart argumentou que o custo por família assentada no local - R$ 27.688 - está abaixo da média nacional.
Tabeliães e corretores ouvidos pela reportagem disseram que o governo fez mau negócio. O Incra comprou cada alqueire por R$ 42 mil. No mercado, poderia ser adquirido por R$ 30 mil.