Título: Indústria reagiu em agosto, mas desaceleração já está em curso
Autor: Jacqueline Farid
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/10/2005, Economia & Negócios, p. B6
A produção industrial voltou a crescer em agosto ante o mês anterior (1,1%), após uma queda de 1,9% em julho ante junho. A reação foi puxada especialmente pela recuperação do poder de compra dos consumidores, por causa do aumento do rendimento médio e da queda nos preços da alimentação, que elevou o consumo de bens não duráveis (alimentos, medicamentos). Houve aumento da produção industrial também na comparação com agosto do ano passado (3,8%), mas o chefe da coordenação de indústria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Silvio Sales, disse que já é possível prever que o terceiro trimestre apresentará crescimento inferior ao do segundo trimestre (2%) ante o período anterior. "Há uma desaceleração em curso", afirmou.
Segundo Sales, os dados de dois terços do terceiro trimestre, referentes a julho e agosto, mostram crescimento, no acumulado dos dois meses, de 0,3% em relação ao total apurado no segundo trimestre, mostrando a tendência de menor ritmo de expansão industrial.
Julio Sérgio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), disse que "está bem claro" que a produção do terceiro trimestre vai esfriar em relação ao segundo.
Ele destacou também que o contraste entre a queda nas vendas apontada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em agosto ante julho (1,08%) - segundo dados divulgados anteontem - e o aumento da produção apurado pelo IBGE no período pode indicar acúmulo de estoques.
Na avaliação do economista do Iedi, o aumento dos estoques pode ser proposital, para as vendas do fim do ano, mas também indesejados. "Se não for de propósito, é um mau sinal para os próximos resultados da indústria. Para Gomes de Almeida, os dados recentes mostram uma oscilação forte porque o setor industrial "ainda não encontrou o caminho do crescimento".
RENDA
Para Sales, do IBGE, os dados de agosto confirmaram que, além dos efeitos das exportações e do aumento do crédito, que garantiram a expansão da produção industrial nos últimos meses, há agora maior influência da recuperação do poder de compra dos consumidores. Segundo ele, há uma "importância expressiva" do mercado interno nos resultados da produção industrial de agosto.
Prova disso, segundo ele, é que os bens de consumo não duráveis, que dependem basicamente da renda e do mercado doméstico, puxaram o crescimento do setor em agosto ante julho. Para Sales, isso confirma uma mudança na composição da expansão da indústria.
"A composição tem sido diferente: no ano passado, o crescimento foi puxado por investimentos (bens de capital) e bens de consumo duráveis e agora, pelos bens de consumo em geral (duráveis e não duráveis)", disse.
Ele acrescentou que "agora, para além das exportações e do crédito, há indicadores de massa salarial mais favoráveis e desaceleração de preços, especialmente dos alimentos, e esses fatores beneficiam os não duráveis". Para Gomes de Almeida, os dados de agosto mostram que " o mercado doméstico cresceu bem, mas não há certeza se é um espasmo ou tendência".
INVESTIMENTOS
A pesquisa industrial mostrou que a produção de bens de capital, que ilustra como estão os investimentos em máquinas e equipamentos, reverteu em agosto as quedas apresentadas em julho, com crescimento na comparação com o mês anterior (3,1%) e em relação a agosto do ano passado (3%).
Os dados abertos referentes a bens de capital, comparativos com agosto do ano passado, mostraram ligeira redução no indicador de máquinas para fins industriais (-0,7%), que indicam investimentos na própria indústria, para modernização ou ampliação de capacidade instalada.
Mas Sales observou que essa queda não pode ser interpretada como redução dos investimentos, já que as importações desses produtos prosseguem em forte crescimento, o que pode estar compensando a menor oferta interna dos equipamentos. "A taxa de investimentos apurada pelo PIB (Produto Interno Bruto) leva em conta também esses dados de importação", disse.