Título: 'Espero que Lula vista a minha camisa', diz bispo
Autor: Angela Lacerda
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/10/2005, Nacional, p. A8

Reunido com movimentos sociais em Petrolina, d. Luís Cappio volta a advertir que, se houver 'blefe', ele retoma sua greve, agora acompanhado de 'centenas de cidadãos'

Se o governo federal não cumprir o acordo firmado na quinta-feira, de suspender o projeto de transposição do Rio São Francisco, "poderemos ter a ousadia de dizer que o governo brasileiro mentiu, houve um blefe, uma mentira". Quem avisa é o bispo Luís Flávio Cappio, que se juntou a cerca de 800 integrantes de movimentos sociais, ontem de manhã, na Assembléia Popular Pela Vida do Rio São Francisco, do Semi-Árido e do Brasil, promovida em Juazeiro, na margem baiana do rio.

D. Luís explicou que o seu gesto - a greve de fome de 11 dias - não teve conotação político-partidária e nem existe nele "ranço de política partidária". É um gesto "de amor, para ajudar o nosso presidente Lula a resgatar sua dignidade e o compromisso com seu povo, porque ele é nordestino do semi-árido". Em seguida, cobrou: "Os que me conhecem sabem que em toda minha vida de militância vesti a camisa do Lula. Agora espero que ele vista a minha camisa, que não é minha, mas de milhares de nordestinos do semi-árido".

O religioso, que é bispo da Diocese de Barra (BA), voltou a criticar o projeto de transposição: "O governo agiu como um rolo compressor e dentro de um projeto político autoritário que de forma alguma podemos aceitar". Seu temor de que o acordo - de abrir espaço para um amplo debate sobre o assunto - seja ignorado nasceu de uma entrevista do ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, segundo o qual ninguém havia falado em suspensão ou adiamento do projeto. "Quero acreditar na seriedade do acordo, mas não sou otimista, nem pessimista, sou realista", avisou o bispo, que imitou o presidente da República ao se valer de imagens do futebol: "O segundo tempo do jogo começou. O chute foi dado, a bola está rolando e ninguém joga sozinho. Cada um deve fazer a sua parte, sobretudo por amor ao nosso povo do sertão".

BONÉS E CAMISETA

Com uma camiseta do "Comando Virgulino em favor do sertão" (Virgulino é o nome do célebre cangaceiro Lampião, dos anos 30), o bispo ganhou bandeiras e bonés de grupos como o Movimento dos Sem-Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), da Bahia, e voltou a dizer que se o que foi firmado não for atendido, volta a Cabrobó para nova greve de fome, "desta vez ao lado de centenas de cidadãos". Sem largar a imagem em madeira de São Francisco de Assis, que levou na sua peregrinação ao longo do São Francisco, da nascente à foz, de outubro de 1992 a outubro de 1993, ele foi abraçado, festejado, ouviu artistas locais, poesias e um número de xaxado encenado por crianças da Infância Missionária de um bairro da periferia de Juazeiro.

Na abertura do encontro, agradeceu aos que o apoiaram e que foram, segundo ele, "imenso alimento" no seu jejum. "Vocês não podem imaginar a energia que a fé desprende na nossa vida quando a gente assume uma postura em nome de Deus e em favor dos irmãos", acrescentou. Com seu rosto estampado em camisetas, faixas e santinhos, ele pediu que a luta pelo semi-árido não se concentre nele. "A luta é pelo povo marginalizado desta região."

Movimentos de pescadores, estudantes e pastorais juntaram-se, no encontro, a organizações como Caritas, Atingidos por Barragens, Movimento dos Pequenos Agricultores e Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada.

Os participantes do ato contra a transposição fizeram a última manifestação do dia bloqueando, às 17h, a Ponte Presidente Dutra, que liga Juazeiro a Petrolina, encerrando a interdição 35 minutos depois. O presidente da Comissão Pastoral da Terral, d. Tomás Balduíno, estava presente à manifestação.

D. Luís chega hoje no final de manhã a São Paulo. Quarta-feira ele celebrará missa na igreja do Largo de São Francisco, no centro da Capital.