Título: Lula dá pito em Vavá e pede cuidado com aproveitadores
Autor: Vera Rosa, Wilson Tosta
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/10/2005, Nacional, p. A5
Presidente se irrita com o irmão, acusado de lobby no governo; Mercadante pede que família de Lula não tente obter vantagens
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou muito irritado com a notícia de que seu irmão mais velho, Genival Inácio da Silva, o Vavá, abriu escritório em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, para ajudar empresários a negociar com o governo. Depois de ler reportagem da revista Veja deste fim de semana com a denúncia, que dá margem a novas acusações de lobby e tráfico de influência, Lula telefonou ontem para Vavá e lhe deu uma bronca. "Você não pode fazer isso", afirmou o presidente, de acordo com relato de um auxiliar, no Palácio do Planalto.
Vavá alegou que não fazia lobby, embora tenha dito que recebia pedidos de empresários interessados em "trabalhar com o governo". O irmão de Lula assegurou que não recebeu nenhum pagamento pelo serviço. Em conversas reservadas, o presidente disse confiar em Vavá, mas na dura conversa o repreendeu por achar que sua atividade dá margem à aproximação de aproveitadores.
Questionado sobre o comportamento de Vavá, o ministro-chefe das Relações Institucionais, Jaques Wagner, comentou: "Quem conhece o Vavá sabe que ele não é lobista".
Com 64 anos, o ex-metalúrgico Vavá é muito ligado a Lula e trabalhou por sua eleição, em 2002. "O maior antídoto contra qualquer coisa que se diga do Vavá é que ele não conseguiu eleger nem o filho", disse Wagner, referindo-se a Edson Inácio, filho do irmão de Lula, derrotado na tentativa de se eleger vereador em São Bernardo do Campo, no ano passado. No primeiro turno das eleições para presidente do PT, antes de votar, Vavá defendeu o governo do irmão das acusações de envolvimento em corrupção, segundo ele obra de inimigos do PT para atingir o governo.
RECOMENDAÇÃO
O líder do Governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), fez ontem uma recomendação pública à família do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que não utilize o parentesco com ele para tentar obter vantagens indevidas, porque, segundo ele, essas investidas não terão sucesso e ainda prejudicarão Lula. Embora não o citasse nominalmente, o parlamentar manifestou o seu desagrado em relação à sua atuação de Vavá na intermediação de negócios públicos e pediu que os Inácio da Silva se limitem a se orgulhar do irmão presidente.
"A família do presidente é muito numerosa e muito humilde, os irmãos são muito pobres...", afirmou. "O que eles têm que ter é orgulho de ter um presidente como irmão. Mas, se puder dar uma recomendação, não tentem utilizar essa condição para qualquer tipo de outro interesse. Primeiro, porque não vai prosperar, como não prosperou: nenhuma facilidade será obtida simplesmente por uma pessoa ter parentesco com um homem público, mesmo o presidente da República, sobretudo neste governo. Segundo, porque vão prejudicar a si mesmos e ao irmão. Portanto, tenham como honra ter um presidente irmão. E só isso."
Comentando outra denúncia, a de que o filho do deputado José Dirceu, José Carlos Becker de Oliveira, o Zeca Dirceu, prefeito de Cruzeiro d'Oeste (PR), teria intermediado a liberação de verbas federais para a região da cidade, Mercadante fez um apelo diferente do anterior. "Acho que devíamos fiscalizar com muito rigor o que diz respeito ao interesse público, cobrar dos homens públicos, mas deixar os filhos em paz."