Título: Mapa do lobby da Gtech incluía Lula, Palocci e Dirceu
Autor: Rosa Costa e Vannildo Mendes
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/10/2005, Nacional, p. A9

BRASÍLIA - Antes de iniciar as negociações para renovar o contrato de R$ 650 milhões com a Caixa Econômica Federal, a multinacional Gtech preparou uma espécie de mapa do lobby. O documento, chamado pela empresa de "agenda política" foi entregue ontem à CPI dos Bingos pelo advogado Enrico Gianelli e exibido para os senadores numa projeção feita a partir de uma transparência. Nele, estão os nomes de autoridades que poderiam facilitar o negócio e os caminhos que a multinacional deveria trilhar para chegar a eles. O senador José Jorge (PFL-PE) chamou a atenção para o fato de o então chefe da assessoria parlamentar da Presidência da República, Waldomiro Diniz, figurar no mapa da Gtech com o mesmo fundo azul escuro (e, portanto, o mesmo status) do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dos ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e da Casa Civil, José Dirceu, e do então presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

Gianelli disse ter apresentado o documento interno da Gtech para se livrar da pecha de ser acusado de intermediar a negociação na renovação do contrato. Segundo ele, o mapa identifica claramente quem são os envolvidos na operação, dentro e fora da empresa. Com o título "Political Agenda - Lottery" (Agenda Política - Loteria), o desenho apresenta três campos - um de "contratos de um ou dois anos", outro de "novos negócios" e outro para o Planalto, nos quais espalha os nomes de 16 pessoas.

Marcelo Rovai, o diretor da Gtech, tentou contemporizar, alegando que aquela era uma forma de "convencer os governantes da idoneidade da Gtech". Irônico, o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) questionou se esses contatos também serviriam para a empresa doar recursos para obras sociais. "É o mapa do lobby", sentenciou. O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) quis saber se ele e outros parlamentares, a exemplo de Sarney (citado porque era então presidente do Congresso) também poderiam ser incluídos na lista. "Poderia, senador", respondeu Rovai. "Todos aí são homens de bem".

Suspeito de ser um dos intermediadores do achaque, o advogado Rogério Buratti mostrou que seu nome não estava lá. Segundo a CPI, caberia a ele ocupar o espaço identificado como as letras TBD (to be defined) ou a pessoa a ser definida para facilitar o acesso ao presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso. Buratti ironizou o fato de a Gtech, "com um contrato da importância de R$ 650 milhões, precisar contratar um lobista para chegar ao presidente da Caixa". Referia-se à parte do mapa em que o nome de Afrânio Nabuco - que seria consultor da Gtech - aparece como intermediário entre a Gtech e o presidente Lula e o senador Sarney. A partir deles, segundo o mapa, é feita a ligação com José Dirceu que, por sua vez, aparece como interlocutor do presidente da Caixa, Jorge Mattoso , e seu vice Paulo Bretas.

O mapa dá cor amarela para os ministros, como Luiz Furlan, Gilberto Gil e José Graziano (na época, no Fome Zero), tidos como "formadores de opinião do governo". A cor laranja identificava funcionários da própria Gtech - mas o senador Romeu Tuima perguntou a Rovai se eles "seriam laranjas mesmo". Os servidores da Caixa aparecem na cor azul.