Título: Política industrial comum não é consenso
Autor: Cleide Silva
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/10/2005, Economia & Negócios, p. B6
A disputa entre Brasil e Argentina é mais forte do que a cooperação, mas, apesar das diferenças, há chances de adoção de uma política comum baseada no estímulo à inovação, crê o presidente do Ipea, Glauco Arbix. Os dois podem crescer juntos, mesmo em ritmos diferentes. ¿É possível discutir medidas para tornar as empresas mais competitivas e em condições de disputar mercado na UE, EUA e Japão em vez de brigarem entre si.¿ João Alberto de Negri, diretor do Ipea, sugere como ações conjuntas a atração de capital estrangeiro, estratégias de investimentos cruzados e de comércio entre indústrias, medidas adotadas no processo de desenvolvimento industrial da Europa.
A proposta de uma política industrial comum do Mercosul tem respaldo na Sabó, fabricante brasileira de autopeças, com fábrica na Argentina. ¿Perdemos muitas oportunidades de crescer ao brigar entre nós. Enquanto isso, os investimentos vão para a China¿, diz Luis Gonzalo Guardia, diretor de operações na América do Sul.
Guardia defende a redução de barreiras alfandegárias para a transferência de tecnologia e equipamentos, financiamento para pesquisas e intercâmbio de tecnologias. O setor automobilístico é um dos que sofrem restrição na Argentina. O governo quer prorrogar, mais uma vez, a abertura do mercado entre os dois países, agora para 2008. Também estuda recorrer contra o programa de financiamento às exportações de carros anunciado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social na semana passada. Alega que isso põe em desvantagem a indústria local.
Descrédito em relação a um projeto de política conjunta com a Argentina foi manifestado pelo diretor executivo da Abicalçados, Heitor Klein. ¿Não vejo possibilidade no curto nem no médio prazo. Há uma diferença brutal entre empresários argentinos e brasileiros que resulta nessa diferença abissal de competitividade¿, diz ele, para quem a indústria argentina parou nos anos 50. Para Klein, as empresas brasileiras deveriam investir lá sem parceria com fabricantes locais.