Título: Chuva na Amazônia é esperança do fim da seca
Autor: Talita Ribeiro
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/10/2005, Nacional, p. A9

Proximidade do "inverno" já fez chover ontem em cidades nos Rios Juruá, Alto Solimões e Madeira

MANAUS - Quatro municípios amazonenses anunciaram ontem que estavam sob chuvas e acenderam a esperança de que a dramática seca que castiga a região que tem o maior reservatório de água do doce do planeta esteja para acabar. Ontem de manhã chovia em Guajará e Carauari, ambas no Rio Juruá, em Tonantins, no Alto Solimões, e em Humaitá, no Rio Madeira. Essa chuva não é ocasional, pois em novembro começa o "inverno" amazônico, a estação das chuvas. Essas chuvas, dizem os meteorologistas amazonenses podem ser o início efetivo do "inverno" ou apenas um repiquete (gíria local que significa uma curta temporada de chuvas, que logo pára). Se continuar chovendo, os meteorologistas estimam que o aumento da vazão d'água levará de 20 a 30 dias para regularizar os cursos dos rios.

A seca quebrou a tradicional forma de interligação das comunidades na Amazônia, o transporte fluvial. Com a baixa vazão dos rios, tornou-se difícil e, em muitos locais, impossível, chegar a muitas comunidades ribeirinhas. As comunidades indígenas ficaram praticamente isoladas, pois à grande maioria delas só se chega de barco.

O governo estadual contratou 5 helicópteros para atuarem no transporte de alimentos e medicamentos a comunidades isoladas, mas eles estão se mostrando insuficientes. "Estamos agora dependendo da FAB", disse ontem o governador Eduardo Braga.

As ações estão sendo feitas em parceria com Exército, Marinha e Aeronáutica, que ajudam a levar, às comunidades isoladas, carregamentos de alimentos, de medicamentos e, principalmente, de hipoclorito de sódio, um purificador da água que é fundamental para garantir a saúde das pessoas, porque o que restou de água nas fontes naturais está contaminado por uma enorme quantidade de peixes mortos.

O ministro-chefe da Segurança Institucional, general Jorge Félix, voou sábado, ao lado do governador, para avaliar os efeitos da seca sobre a região de Manaquiri, a 150 km de Manaus. "O que vi foi impactante", disse o general, quando chegou de volta ao Comando Militar da Amazônia. Ele admitiu que a situação é preocupante e disse que o governo federal está pronto a ajudar no que for preciso.

O sobrevôo do ministro começou sob boa expectativa, já que nuvens carregadas cobriam o céu de Manaus. De fato, choveu no trajeto, o que mostrou um fenômeno curioso: quando a água da chuva atingia os leitos secos dos rios, provocava uma emanação de vapor d'água que se confundia com a fumaça dos muitos focos de queimadas ainda latentes.

A comitiva do general Félix aportou na pequena comunidade de Santo Antônio, um distrito de Manaquiri, onde a única fonte de água e gerador de alimentos, o lago do Inajá, está completamente seco. As pessoas dos distritos que querem chegar à sede do município têm de caminhar por mais três horas sobre lama que recobre os leitos dos rios.