Título: Preocupação do governo agora é com as CPIs
Autor: Carlos Marchi
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/10/2005, Nacional, p. A4

Depois de ganhar fôlego para sobreviver na crise, o governo está agora preocupado com o prolongamento das CPIs, que vão invadir o ano eleitoral de 2006. Ontem à tarde, após conversar por telefone com o presidente Lula - que estava na Espanha -, o ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Jaques Wagner, disse que as CPIs perderam o foco e estão mais interessadas em fazer a disputa política. "Isso é igual a novela: a partir de um certo ponto as pessoas já podem antever o próximo capítulo", afirmou. Wagner criticou a CPI dos Bingos, que marcou para dia 26 uma acareação entre o chefe de Gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho - um dos mais próximos auxiliares de Lula -, e João Francisco e Bruno Daniel, irmãos do prefeito assassinado de Santo André, Celso Daniel. "O que tem a ver esse caso com a CPI dos Bingos? Fica parecendo um processo de provocação."

No Planalto, a convocação de Carvalho causou muita contrariedade. O chefe de Gabinete de Lula foi secretário de Governo de Celso Daniel. Os irmãos do prefeito contam tê-lo ouvido afirmar que o assassinato, em janeiro de 2002, estava ligado a um esquema de extorsão para financiar o PT. Carvalho nega.

Para Wagner, é "evidente" que a oposição tem interesse eleitoral nas apurações porque não quer que Lula concorra à reeleição. "As CPIs já possuem relatos suficientes para mandar para o Ministério Público, mas as investigações, ali, têm conotação política", reclamou. O ministro repetiu que "não existe mensalão" e todas as irregularidades cometidas são fruto de financiamento de campanha.

Com o argumento de que a continuidade das CPIs "não é uma boa mensagem" para a sociedade, Wagner insistiu em que ninguém agüenta mais a ladainha das comissões. Admitiu que os governistas podem até ter cometido exageros nas estocadas ao PSDB, mas defendeu seus pares: "A toda ação corresponde uma reação."

Antes de viajar para a Europa, no início da semana, Lula orientou Wagner a não interferir nos processos de cassação dos deputados petistas. Motivo: o governo avalia que a crise do mensalão começou a arrefecer com a vitória de Aldo Rebelo (PC do B-SP) para a presidência da Câmara e tem tudo para esfriar ainda mais, desde que as CPIs não invadam o calendário eleitoral. "O desgate do governo e do PT com o escândalo já está consolidado", insistiu Wagner. "A crise está decantando."

O ministro faz de tudo para negar o interesse do governo na renúncia dos companheiros do PT. Dos seis petistas envolvidos no escândalo, cinco recorreram ao Supremo Tribunal Federal, na tentativa de ganhar tempo. Se o mandado de segurança for rejeitado e se não quiserem enfrentar processo no Conselho de Ética da Câmara, eles devem renunciar até as 18 horas de segunda-feira. José Dirceu (PT-SP) já responde a processo e não pode mais renunciar. Está à beira da cassação.

O ideal para o governo seria que todos os petistas citados renunciassem, embora ninguém admita isso oficialmente. Lula fez um agrado a eles, falando para o público interno do PT, ao receber a bancada do partido no Planalto, há oito dias. Na prática, gostaria de ver o assunto resolvido o mais rápido possível. Wagner, no entanto, diz que não é bem assim. "Trata-se de uma questão pessoal, na qual o governo não vai interferir", observou. "Agora, renúncia não é prêmio. É bom que isso fique claro."