Título: Mau negócio em Moscou
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Fonte: O Estado de São Paulo, 18/10/2005, Notas e Informações, p. A3
Vai sair muito barato para a Rússia o apoio brasileiro a seu ingresso na Organização Mundial do Comércio (OMC). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve anunciar esse apoio durante visita a Moscou, marcada para hoje. Em troca, o Brasil tentará receber, também, a garantia de restabelecer o mais rapidamente possível as exportações de carnes para o mercado russo. O presidente Vladimir Putin, assim como seu colega chinês, Hu Jintao, poderá recomendar aos amigos da Ásia, da África e da Europa Oriental: procurem Brasília e façam bons negócios. Candidatos a ingresso na OMC dependem da aprovação dos sócios. Essa aprovação envolve, normalmente, alguma contrapartida aos sócios com algum peso econômico ou político. O governo russo negociou os votos de 54 países. Fechou acordos bilaterais com 36 e pagou o pedágio necessário.
O Brasil ficou para trás. Durante as negociações de apoio na OMC, a Rússia distribuiu cotas a exportadores de carnes. As maiores foram para os Estados Unidos e para a União Européia. Os paraguaios tiveram cota. Os produtores brasileiros, não.
Apesar disso, a Rússia é uma grande compradora de carnes do Brasil. Sendo um grande produtor, o País é capaz de atender às necessidades da Rússia mesmo sem cota oficial. Mas, para isso, tem de encontrar brechas no sistema russo de importação. A situação é desconfortável e o tratamento recebido pelo Brasil beira a humilhação, mas o quadro será mantido.
O apoio brasileiro à pretensão russa de ingresso na OMC foi mais uma vez discutido no fim de semana em Genebra. Os diplomatas brasileiros conseguiram apenas uma promessa pífia: caberão ao Brasil as parcelas de cotas não preenchidas por outros exportadores de carnes. Na prática, nada ou quase nada mudará.
Cabem ao Brasil, portanto, benefícios meramente residuais. As concessões importantes foram dirigidas a outros países. Alguns deles ainda nem anunciaram oficialmente seu voto a favor da Rússia. Estão neste grupo os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália.
Esse quadro evidencia, mais uma vez, o contraste entre os objetivos diplomáticos do Brasil e os de parceiros apontados como preferenciais pelo governo petista. A Rússia, como a China e a Índia, pode ser classificada como um sócio prioritário pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela atual diplomacia. Mas o Brasil não é prioritário para os governos desses países.
O governo chinês nunca deixou dúvida quanto a seus objetivos. A China tem um projeto próprio de ocupação de espaço internacional. É um projeto bem delineado e não inclui nenhum compromisso de alinhamento com parceiros emergentes ou subdesenvolvidos.
Só o governo brasileiro parece não ter percebido esse fato evidente. Cometeu a imprudência de atribuir à China o status de economia de mercado, surpreendendo todo o mundo, e nada recebeu em troca. Há pouco tempo, o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, confessou publicamente sua decepção diante do comportamento dos companheiros chineses. Decepção por que, se não houve, de fato, nenhuma surpresa?
Os objetivos do governo russo também não coincidem, a não ser casualmente, com os do governo do presidente Lula. Não surpreende o presidente Putin haver procurado, antes de mais nada, conquistar o apoio de americanos e europeus, muito mais importantes política e economicamente.
O quadro não é novo, mas o governo brasileiro parece ainda não haver entendido a situação. O Brasil rejeitou nos últimos anos todas as chances de maior entendimento comercial com europeus e americanos - principalmente com estes. Deu prioridade a um Mercosul emperrado, a uma América Latina ansiosa por acordos com os EUA e a parceiros emergentes e em transição (como a Rússia) mais interessados em se aproximar das maiores potências.
Nesta negociação sobre o ingresso da Rússia na OMC, todas as vantagens vão para o lado russo. Mais uma vez o governo brasileiro foi incapaz de pensar claramente em termos de interesse nacional. Para piorar, o presidente Lula chega a Moscou na condição de quem deve explicações pelo surto de aftosa em Mato Grosso do Sul. Paga o preço de sempre pela incompetência diplomática e um extra pela incapacidade na execução da política agropecuária.