Título: Africanos querem o fim dos subsídios
Autor: Jamil Chade
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/10/2005, Economia & Negócios, p. B8

Produção de algodão foi afetada e governos ameaçam reunião da OMC

No centro de um dos países mais pobres do mundo, a Tanzânia, a vila de Idete, com 5 mil habitantes, vive um drama: os produtores de algodão abandonaram seus cultivos diante dos preços internacionais do produto, deprimidos por causa dos subsídios americanos a seus fazendeiros. Para evitar que essa situação se repita, ontem em Genebra os governos africanos ameaçaram barrar a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) marcada para dezembro em Hong Kong, se Washington não apresentar alguma solução para o problema. Por determinação da OMC, o governo americano está sendo obrigado a reformar seu subsídios ao algodão após uma queixa aberta pelo Brasil. Sem cumprir a decisão, os americanos tiveram de ouvir do Brasil na terça-feira um pedido para que a OMC autorize uma retaliação de US$ 1 bilhão contra produtos americanos. A Casa Branca contestou o valor e agora a OMC vai calcular qual de fato é o montante que o Brasil teria direito a utilizar para impor sanções contra os americanos.

Ontem, a entidade britânica Oxfam divulgou nova avaliação sobre os subsídios americanos e concluiu que o apoio governamental foi duplicado nos últimos dois anos nos EUA. Isso ocorreu enquanto o Brasil questionava legalmente o país na OMC e os países africanos sofriam uma perda de US$ 350 milhões.

Segundo a entidade, quando os preços internacionais caem, Washington compensa seus produtores por eventuais perdas. Só em 2004 e 2005, o valor chegou a US$ 4,2 bilhões, mesmo resultado da venda da produção do algodão.

No caso da África, os governos alertam que não podem mais esperar pela reforma nos EUA e querem ações imediatas para a retirada dos subsídios. "Podemos chegar a uma situação em que seremos obrigados a pedir pelo fracasso desse projeto (a reunião da OMC em Hong Kong) para nossa opinião ser escutada", disse Choguell Maige, ministro do Comércio de Mali em conferência ontem em Genebra.

Com expectativa de vida média de 47 anos e renda per capita de US$ 240 por ano, a Tanzânia também aposta na reforma dos subsídios americanos para vender seus produtos. Em Idete, os agricultores ainda não encontraram uma alternativa econômica para o algodão e a vila vive em completa miséria.