Título: Juro cai 0,5 ponto. Lula quer mais
Autor: Renée Pereira, Gustavo Freire
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/10/2005, Economia & Negócios, p. B1

Selic passou para 19% ao ano, mas presidente já convocou reunião do grupo que estuda alternativa para acelerar a queda

Pelo segundo mês seguido, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a taxa básica de juros, a Selic, em 0,5 ponto porcentual, sem viés, para 19% ao ano. A decisão, unânime, confirmou a aposta do mercado e sinalizou que a trajetória de queda vai continuar nessa proporção, pelo menos até o fim do ano. Apesar disso, o Brasil ainda terá as maiores taxas do mundo. O governo quer mais. Já está marcada para a próxima semana a primeira reunião do presidente Lula com a equipe que prepara um plano que permita cortar mais rapidamente os juros. Para isso, será necessário um profundo ajuste fiscal.

Em breve comunicado, o BC repetiu o texto da reunião anterior: "Avaliando que a flexibilização da política monetária neste momento não compromete as conquistas obtidas no combate à inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 19% ao ano, sem viés."

O resultado, que vinha sendo anunciado por 60% dos analistas do mercado, foi recebido sem entusiasmo pelo setor produtivo e o comércio. Para empresários, as taxas de juros elevadas podem prejudicar o crescimento sustentado do País, reduzindo investimento e consumo.

Na avaliação do economista Marcelo Allain, da Fipe/USP, não havia dúvida sobre o espaço para o BC reduzir a taxa, já que o último relatório de inflação mostrava folga para isso. Segundo o documento, a trajetória dos índices de preços para este ano e para 2006 continuam próximas da meta.

Allain acredita que esse recuo de ontem será interpretado pelo mercado como um sinal de que novos cortes de 0,5 ponto serão feitos até o fim do ano e início de 2006. "Não temos grandes preocupações no horizonte. O impacto da desvalorização do dólar nos IGP's significará preços administrados bem menores no próximo ano."

Outro fator importante é a melhora dos níveis de investimentos para aumentar a capacidade de produção, afirma o economista sênior do ABN Amro Asset Management, Eduardo Yuki. Isso vai estimular o crescimento, com o aumento da demanda, mas sem pressionar os preços, diz ele. Diante desse cenário, Yuki afirma que o banco estima uma taxa de juros da ordem de 14% no fim de 2006 e inflação de 4,5%. "Mesmo assim, continuaremos com um dos maiores juros reais do mundo."

Isso mostra que ainda há muita gordura nos juros, afirma o gerente de Política Monetária do Banco Itaú, Joel Bogdanski. Para ele, tecnicamente havia espaço para cortes mais agressivos. "Mas sabemos que o BC não faria isso." Sobre o cenário externo, o executivo afirmou que o nervosismo ainda não prejudica a política monetária.