Título: Futuro da Varig tem Dia D
Autor: Isabel Sobral
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/10/2005, Economia & Negócios, p. B15

Alencar vai tentar convencer o presidente a apoiar a proposta de ajuda governamental à empresa aérea

Correndo contra o relógio, um dia antes da assembléia de credores que poderá ser decisiva para a Varig, o presidente da República em exercício, José Alencar, conduziu ontem uma operação para salvar a companhia contando com o suporte financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), numa espécie de "intervenção branca" do governo. A proposta, entretanto, não tem consenso e foi bombardeada pela equipe econômica. Diante do impasse, Alencar tentará hoje cedo convencer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a apoiar essa proposta de salvação da Varig, com o argumento que se trata da única empresa aérea brasileira com presença no exterior. Antecipada ontem pelo Estado, a proposta prevê um empréstimo do BNDES à Varig no valor de R$ 130 milhões que teria como garantia as ações da Varig Log (empresa de transporte de cargas) e da VEM (manutenção), que seriam depois negociadas em mercado. O governo também assumiria as rédeas do processo de recuperação, ao ocupar quatro vagas no conselho de administração da empresa. Essa interferência do governo ajudaria na renegociação de débitos com empresas de leasing, que ameaçam tomar pelo menos 11 aeronaves a partir de amanhã, em uma ação que corre na Justiça de Nova York. Por mais de cinco horas, Alencar discutiu a viabilidade desta saída com representantes da Infraero, do Banco do Brasil e da BR Distribuidora - estatais credoras da Varig -, além do BNDES. O ministro interino da Fazenda, Murilo Portugal, participou de parte da reunião.

Embora tenha defendido arduamente a ajuda do BNDES, ao final do encontro Alencar foi evasivo. "Poderá haver qualquer coisa. Se o governo puder colaborar para uma solução que salve a empresa, sem estatizá-la, ele vai colaborar." A área econômica, porém, é contra. Participantes do encontro contam que Portugal bombardeou a idéia de pôr recursos públicos na aérea, argumentando que não há brecha legal para isso. A ajuda do BNDES foi classificada como "absurda" por uma fonte graduada do ministério da Fazenda.

O tema Varig mobilizou boa parte do governo. O secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, declarou que estava descartado qualquer "envolvimento do Tesouro" numa operação de socorro à empresa. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que participou de parte da reunião com Alencar, saiu afirmando que não havia definição sobre a participação do BNDES. "O que está claro é o objetivo do governo em colaborar para salvar a companhia." O ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, também defendeu a Varig: "É uma comunidade de aproximadamente 30 mil funcionários, entre ativos e inativos, que não podemos fazer de conta que não existem, apenas por um dogmatismo liberal."