Título: Delgado sentiu-se entre o mar e o rochedo
Autor: Mariângela Gallucci
Fonte: O Estado de São Paulo, 25/10/2005, Nacional, p. A6
INSONE: Júlio Delgado escreveu o parecer do caso Dirceu equilibrando-se no fio de uma navalha. Não podia revelar mágoa contra um ex-aliado, nem transparecer que fora escolhido para salvar o réu; o relatório tinha de ser consistente, mostrando a coragem de quem enfrenta um mito da esquerda. Buscou assessores fora da Câmara e expôs seus medos: ser bombardeado pela turma de Dirceu e pela turma de Roberto Freire (PE), presidente do PPS, partido que acabou de trocar pelo PSB. Dormiu três horas por noite. Estudou súmulas do STF e da Câmara, teses acadêmicas sobre cassação de mandatos. Examinou documentos das CPIs, da Polícia Federal e do Ministério Público. Leu Maquiavel (a idéia da "transfiguração ética" de Dirceu), Goethe (a comparação do ex-ministro com o Doutor Fausto) e Giovani Sartori, estudioso italiano da máfia. Ao final, concluiu: era impossível Dirceu não saber o que se passava.