Título: Brasil piora em ranking mundial de corrupção
Autor: Guilherme Evelin
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/10/2005, Nacional, p. A8

País cai da 59.ª posição, em 2004, para a 62.ª em 2005, entre 159 nações, aponta a Transparência Internacional

A percepção sobre corrupção no Brasil aumentou no governo Lula. É o que revela relatório divulgado ontem pela Transparência Internacional, entidade civil sediada em Berlim, na Alemanha, que monitora a corrupção no mundo. No ranking do índice de percepção da corrupção de 2005, o Brasil ficou em 62º lugar entre 159 países, com nota 3,7, numa escala que vai de zero a 10, sendo 10 a melhor nota. No ranking de 2004, o Brasil estava na 59ª posição entre 146 países, mas com nota ligeiramente superior: 3,9. O índice de 2005 reflete a percepção sobre corrupção a partir de 2003, primeiro ano do governo Lula, detectada em pesquisas e levantamentos conduzidos por dez diferentes instituições internacionais, como o Fórum Econômico Mundial e a Universidade Columbia, nos Estados Unidos, junto a empresários e observadores especializados - mas reproduz também a opinião de brasileiros. O escândalo do mensalão teve pouco peso na nota final, porque as pesquisas foram concluídas até junho, quando a crise política estava no começo.

Entre os cinco países no topo do ranking divulgado ontem, com notas acima de 9, três são nórdicos: Islândia, Finlândia e Dinamarca. Mais de dois terços dos 159 países não alcançaram a nota 5 - o que, para a Transparência Internacional, indica níveis sérios de corrupção entre políticos e agentes públicos. Com a nota 3,7, o Brasil, no conjunto das Américas, empata com Belize e fica atrás de países como Colômbia, Trinidad e Tobago, Cuba e Chile - o latino-americano mais bem colocado, com nota 7,3. Mas supera México (3,5) e Argentina (2,8).

Outro atenuante é que o Brasil está também em melhor situação do que as três outras grandes "baleias" - China (3,2), Índia (2,9) e Rússia (2,4). China e Rússia tiveram quedas em suas notas em relação a 2004. Segundo Claudio Weber Abramo, diretor-executivo da filial brasileira da Transparência, a queda no ranking deve ser relativizada pela entrada de novos países - 13 a mais em relação ao ano passado - e pelo fato de que o índice reflete sobretudo uma percepção em relação ao mundo dos negócios. "O Chile melhorou muito a sua posição no ranking a partir do momento em que se alinhou às posições dos Estados Unidos na América Latina", lembra Abramo.

O fato de que o Brasil praticamente se estabilizou, nos últimos sete anos, na faixa entre 3,7 a 4,0 embute, porém, também uma má notícia. "Isso mostra a pouca disposição dos poderes públicos em combater as causas da corrupção", diz Abramo.

Não é a mesma visão, evidentemente, do governo federal. Em nota divulgada por sua assessoria de imprensa, o ministro-chefe da Corregedoria-Geral da União, Waldir Pires, atribuiu o desempenho do Brasil a "uma secular cultura de patrimonialismo e coronelismo que precisa ser demolida". "Nunca, efetivamente, se combateu a corrupção tanto como agora", diz. "Mas a luta não produz resultados imediatos, muito menos no espaço de um mandato."