Título: Em segredo, Lula sonda assessores e começa a montar núcleo da reeleição
Autor: Vera Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/10/2005, Nacional, p. A4

Sem alarde e com cuidado para não provocar os adversários antes da hora, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já iniciou as conversas, ainda restritas ao núcleo de governo, para montar o comando da campanha à reeleição. Embora diga que decidirá "no momento oportuno" se vai ou não concorrer, ele avalia que a crise política começa a arrefecer e está cada vez mais animado com a candidatura. De todos os homens do presidente, Luiz Gushiken e Marco Aurélio Garcia são antigos colaboradores petistas dados como certos para integrar o comitê do segundo mandato. Lula procura agora substituto para José Dirceu (SP), ex-todo-poderoso chefe da Casa Civil e hoje deputado à beira da cassação que foi coordenador-geral de sua campanha de 2002. Na época, Dirceu também presidia o PT.

Mas Lula já dá sinais de que, por todos os percalços enfrentados pelo PT com o escândalo do mensalão, acharia mais prudente pôr na coordenação alguém que não estivesse na linha de frente do partido. Pelo figurino desejado, de articulador político, o mais lembrado hoje é o ministro Jaques Wagner (Relações Institucionais). Para chefiar o programa de governo fala-se em Tarso Genro, que passou a presidência do PT para o deputado Ricardo Berzoini ontem.

"Existe um diálogo no PT e com ministros políticos sobre o programa de governo. Na semana que vem, após a posse do Diretório Nacional, vamos tratar dessa questão com o PSB e o PC do B, para termos uma proposta programática que dê sustentação ao presidente", conta Tarso, ex-ministro da Educação.

Cauteloso, Wagner insiste que Lula ainda está em dúvida sobre entrar na disputa. "E engana-se redondamente quem pensa que ele está se afastando do PT", apressa-se em dizer, sempre que o tema vem à tona.

Mas quinta-feira, ao discursar no congresso do PC do B, Lula não pareceu ter nenhuma dúvida. "Olha, companheiros, para fazer tudo o que a gente quer, vai precisar de mais alguns mandatos", admitiu.

As sondagens preliminares vêm sendo feitas muito reservadamente. "É fundamental constituir um núcleo de articulação político-partidária", diz o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). "Estamos entrando em ano eleitoral e é importante fazer o mapeamento dos Estados, o diagnóstico do potencial eleitoral, das alianças e o perfil das candidaturas, até para definir nossa estratégia. Os outros partidos têm feito consultas e nós só estamos esperando a transição no PT."

Amigo de Lula, Gushiken só não irá para o comitê da reeleição se não quiser. Ele deixou a Secretaria de Comunicação do Governo há três meses, no auge da crise, para se refugiar no Núcleo de Assuntos Estratégicos e, assim, poupar o Planalto do tiroteio que o atingia pessoalmente. Mas Lula considera que Chininha, apelido que deu ao companheiro, está "mal aproveitado" e já planeja puxá-lo para o núcleo da reeleição. Gushiken foi coordenador-geral das campanhas de Lula em 1989 e 1998 e adjunto na de 2002.

Assessor especial para Assuntos Internacionais, Garcia é outro considerado indispensável no comando estratégico. Lula também quer o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB), até agora o único não petista, e o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci.

Tarso diz que o tema programa de governo começará a ser debatido na próxima semana. "Queremos encaminhar a reeleição fundamentada num modelo de desenvolvimento que avance na distribuição de renda e na recoesão social." Ele garante não ter sido convidado para integrar a cúpula da campanha, mas não esconde suas aspirações. "Estou livre para servir à reeleição do presidente Lula, seja como participante da coordenação do programa, seja em sua assessoria ou em algum grupo especial do PT", comenta.

indagado se não seria vetado pela Fazenda por discordar da política econômica, Tarso é taxativo: "Se forem vetar as pessoas que defendem mais crescimento e menos juros, provavelmente vão ter de vetar 90% do PT." Para ele, porém, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, "não é neoliberal". "Eu me dou muito bem com ele", jura.

Vantagem de Serra em um eventual 2.º turno diminui

INTENÇÃO: Diminuiu a vantagem do tucano José Serra sobre Lula na simulação de um 2.º turno. Pesquisa Datafolha divulgada ontem mostra que 45% dos brasileiros votariam em Serra e 41%, em Lula. A diferença em agosto era de nove pontos (48% a 39%). Apesar de aparecer como derrotado, Geraldo Alckmin (PSDB) melhorou sua performance em 2.º turno com Lula. O governador perde por 37% a 45%. Em agosto, era 35% a 45%.