Título: No país onde a doença mais mata
Autor: Cristina Amorim
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/10/2005, Vida&, p. A24
O frango é rei no Vietnã e quem visita uma vila como essa, na província nortista de Thai Binh, a sudeste de Hanói, nem imagina que ela está na linha de frente de uma guerra microbiológica titânica. Pelo menos três quartos dos patos e um quarto das galinhas locais são hospedeiros de uma variedade mutante e mortal de gripe aviária - que levou o médico David Nabarro, recém-nomeado coordenador para gripes humanas e aviárias da ONU, a advertir para o risco da morte de 150 milhões de pessoas em decorrência de uma pandemia que "poderá ocorrer a qualquer momento". Nabarro foi acusado de alarmismo, mas seu temor se originou em evidências críticas colhidas recentemente nessa região, que se tornou um caldo de cultura para o vírus da gripe aviária por causa das criações de aves sem cercas ou demarcação de limites, feiras de aves vivas e matadouros de fundo de quintal.
Desde que foi detectado pela primeira vez no país, em dezembro de 2003, o vírus H5N1 se espalhou rapidamente pela Coréia do Sul, pela, China, Tailândia e Indonésia. Neste ano, atingiu Camboja, Coréia do Norte, Laos e Filipinas e daí alcançou o resto da Ásia. Há alguns dias, seguiu em direção da Europa, nas rotas migratórias de 184 espécies de aves selvagens, e chegou à Turquia, à Rússia e à Romênia.
Apesar das previsões apocalípticas, enquanto a gripe aviária ficar na manifestação atual, ela ameaça principalmente os que criam ou matam as aves. A fase crítica que precede uma pandemia é a mutação que torna o vírus facilmente transmissível entre pessoas. É o que os especialistas acreditam que aconteceu há 87 anos, quando uma cepa similar de gripe aviária - erroneamente conhecida como gripe espanhola - viajou pelo mundo.
Documentos da época recuperados no Royal Hospital de Londres por John Oxford, professor de Virologia na London School of Medicine, indicam como provável causa da pandemia de 1918 uma gripe que se originou nas aves mantidas em acampamentos militares no front ocidental no inverno de 1916. Em dois anos, o vírus mudou o suficiente para ser transmitido de soldado a soldado com a mesma facilidade da gripe comum. A epidemia matou mais de 40 milhões de pessoas.
MUTAÇÃO SEMELHANTE
A gripe aviária atual iniciou uma mutação semelhante e a fase crítica pode ter começado. Pelo menos oito focos de humanos infectados foram identificados neste ano; algumas vítimas podem não ter tido contato com aves doentes e ter sido infectadas por parentes ou em hospitais. O primeiro indício de que o vírus havia sofrido mutação foi a descoberta de pesquisadores internacionais de que ele cruzou a barreira de espécies. A maioria dos vírus é incapaz de se adaptar a estruturas celulares que não a da espécie em que se desenvolvem primeiro.
Em agosto de 2004, na China, a gripe aviária atingiu porcos, cujo sistema imunológico é parecido com o do homem. Depois atingiu tigres e leopardos (outubro de 2004), matando 23 num zoológico da Tailândia - e então, no Vietnã (junho de 2005), gatos domésticos e as raras civetas, que causaram, em 2003, o surto humano da Sars - outro vírus originado de aves. "Cada contaminação entre espécies indica a existência de uma nova mutação do vírus, o que aumenta as chances de uma delas vir a se tornar altamente infecciosa para humanos", diz Peter Horby, epidemiologista da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Hanói.
No norte do Vietnã, o H5N1 "pulou" para os humanos em janeiro de 2004. O vírus detonou uma explosão de citocina no corpo, enquanto o sistema imunológico era induzido a atacar tecidos humanos, causando forte hemorragia nos pulmões. Em 18 meses, 87 pessoas foram contaminados; 38 sofreram mortes terríveis. A cada novo caso, o vírus avançava, infectando grupos maiores de pacientes, permanecendo em uma comunidade por semanas até reaparecer em outra sem que houvesse ligação aparente.
Em Taiwan e Hong Kong, surtos entre humanos eram rapidamente controlados, mas no Vietnã "a situação é crítica", diz Horby. "Há pequenos sinais de alarme por todo o país. A epidemia é inevitável." Ao invés de permitir aos epidemiologistas livre acesso às amostras portadoras do vírus, o governo vietnamita recusou-se a compartilhar informações e decidiu sair numa ofensiva propagandística. Segundo anúncio recente do governo, o Vietnã teria conseguido reduzir a taxa de mortalidade dos doentes de 70% em 2004 para 20% neste ano.
SEM CONDIÇÕES
Quando a gripe aviária surgiu, o Instituto Nacional de Higiene e Epidemiologia (INHE) em Hanói, principal centro de análises do país, não tinha salas de segurança, freezers, centrífugas ou incubadoras, e teve de pedir empréstimo de US$ 53.400 mil à OMS. Não havia máscaras e luvas. Mesmo hoje, o hospital de Bach Mai, onde dezenas de vítimas da gripe eram tratadas, não tem ala de isolamento apropriada.
Quando surgiram sinais de que uma pandemia era iminente, pediu-se que cada país relatasse todos os casos de gripe aviária à OMS. Mas os vietnamitas relutaram em passar os dados.
Pesquisadores da Grã-Bretanha, China, do Canadá, Japão, Itália e dos EUA se queixaram de que centenas de amostras de soro de vítimas da gripe e de seus parentes ficaram trancadas no INHE. As informações que conseguiram arrancar do Vietnã contradisseram ainda mais as alegações de que o vírus está sob controle. A alardeada diminuição das mortes por gripe aviária, combinada com um aumento de infecções leves por H5N1 e casos assintomáticos, é um sinal de que o vírus sofreu novas mutações e está entrando num estágio cada vez mais mortal.