Título: Cresce uso da tecnologia nos carros
Autor: Cleide Silva
Fonte: O Estado de São Paulo, 31/10/2005, Economia & Negócios, p. B8
Há dez anos, os automóveis europeus tinham em média 12% de eletrônica embarcada; na próxima década, chegarão a 32%
Os automóveis vão receber, nos próximos dez anos, quase o dobro do que têm hoje em conteúdo tecnológico, a chamada eletrônica embarcada. O desafio da indústria automobilística mundial, especialmente a de países com consumidores de menor renda, como o Brasil, é como diluir o impacto nos custos para expandir a oferta de sistemas inovadores de segurança, lazer e conforto além dos carros luxuosos. Outro problema a ser enfrentado pelos centros de desenvolvimento é a qualidade dos sistemas. Quanto mais sofisticados, maior o índice de defeitos constatados. Estatísticas mostram que os veículos da Mercedes-Benz, conhecidos pelo luxo e tecnologia, são os que apresentam mais problemas relacionados à parte eletrônica. Do total de carros Mercedes, 4,9% apresentam defeitos. Depois vêm os modelos BMW, com 4%, e General Motors com 2,8%, seguida pela Volkswagen, com 2,7% (ver tabela). As marcas com menos problemas são as japonesas Honda e Toyota, com 1% cada.
As montadoras precisam lidar melhor com o aumento da complexidade dos veículos para evitar insatisfação dos clientes e garantir a confiabilidade da marca, diz o diretor da Roland Berger do Brasil, Corrado Capellano. Estudo mundial divulgado pela consultoria mostra que o aumento do conteúdo tecnológico dos carros nem sempre agrada ao consumidor.
A desaprovação pode ocorrer na medida em que o comprador precisar atender maior número de "recalls" para verificar possíveis defeitos. Há casos também em que os motoristas não sabem lidar com muitas das tecnologias disponíveis.
Segundo o estudo da Roland Berger, o valor da parte eletrônica embutida nos automóveis atualmente equivale a 124 bilhões do custo da frota mundial. Esse valor deve crescer para 224 bilhões em 2015, um aumento de 80%. Foram analisados dados de montadoras e fornecedores de sistemas da Europa, Estados Unidos, Ásia, Pacífico e América do Sul.
"Já houve uma explosão das funcionalidades integradas, mas há muito ainda a ser colocado nos automóveis", afirma Capellano. Os sistemas que mais receberão inovações são os de display (som, DVD, computador de bordo e navegação ) , multimídia e segurança. Entre as novidades a serem introduzidas ou aperfeiçoadas estão os sensores que mantêm distância fixa entre os veículos e sistemas de navegação mais completos. Há dez anos, um automóvel europeu tinha em média 12% de eletrônica embarcada, participação que este ano está em 22,4%. Em mais uma década deverá chegar a 32%, prevê a Roland Berger.
No Brasil, onde quase 60% das vendas são de modelos mais populares, o conteúdo de eletrônica embarcada dobrou nos últimos 5 anos e deve continuar crescendo, diz o engenheiro da SAE Brasil - Sociedade de Engenheiros da Mobilidade - Carlos Storniolo.
RESISTÊNCIA
Há casos de resistência do próprio consumidor em adotar a tecnologia disponível. Diva Rossetto, proprietária há dois anos de um Citroen C5, modelo importado da França e vendido a R$ 110 mil, nunca acionou o sistema do câmbio automático seqüencial que permite comandar a troca de marchas, uma reivindicação de muitos motoristas para situações específicas e cujo desenvolvimento, segundo um representante da Citroen, absorveu "muito dinheiro."
"Nunca precisei usar", confirma Diva, que também ignora benefícios disponíveis no computador de bordo como o controle de velocidade e de gasto de combustível por quilômetro rodado. Capellano concorda que alguns veículos oferecem mais do que o consumidor necessita. Por abrigar centros de desenvolvimento, a indústria brasileira precisa estar integrada às matrizes e aos novos projetos mundiais, afirma Capellano. Escolher a tecnologia correta para o mercado em que atua faz parte da estratégia das empresas, que também precisam encontrar maneiras de compensar o custo maior das inovações, buscando r