Título: Impopular, Bush corre risco de novo fracasso diplomático
Autor: Denise C. Marin, Ariel Palacios e Marina Guimarães
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/11/2005, Nacional, p. A12
Cada dia mais desacreditado em casa e francamente impopular no resto do continente, o presidente George W. Bush tentará, a partir de hoje, a difícil tarefa de convencer os 33 outros líderes eleitos do continente a renovarem o compromisso com a agenda comum de promoção da democracia, do crescimento econômico e da liberalização comercial que eles e seus antecessores adotaram na 1.ª Cúpula das Américas, em dezembro de 1995, e reafirmaram em três encontros subseqüentes.
Embora nenhum deles discorde desses objetivos, Bush corre o forte risco de colher, em Mar del Plata, mais um insucesso em sua política externa. "O encontro ocorre num momento em que as relações entre os EUA e a América Latina enfrentam profundos problemas e pode acabar num desastre", adverte o presidente do Diálogo Interamericano, Peter Hakim. "A agenda comum do hemisfério enrolou; as negociações de um acordo regional de livre comércio empacaram nas divergências entre EUA e Brasil; nenhum governo rejeita a democracia, mas visões divergentes de soberania, intervenção e governança frustraram esforços regionais para enfrentar óbvias ameaças à democracia em países como Nicarágua, Equador e a Venezuela", argumenta ele.
Pesquisa do Instituto Zogby mostra que 86% dos membros da elite da América Latina desaprovam a estratégia americana na guerra contra o terrorismo, rejeitam o unilateralismo da administração Bush e o desprezo com que trata as instituições e as normas internacionais. Os EUA são o parceiro econômico mais importante de todos os países do continente, mas um sentimento antiamericano condiciona o comportamento dos líderes diante do presidente dos EUA. Um exemplo foi a reação constrangida do Planalto diante dos elogios de Bush a Lula.
A agenda de Bush mostra que, ante a falta de entusiasmo pela continuidade do processo de cúpulas continentais - até ontem não havia acordo sobre a declaração política do evento - ele levará adiante sua estratégia alternativa de aprofundar as relações dos EUA com cada país, individualmente, ou com grupos de países interessados. Hoje Bush terá encontro com o presidente Ricardo Lagos, do Chile, e depois se reunirá com os líderes da América Central e de países andinos. Todos os interlocutores de hoje representam países que já concluíram acordos de liberalização comercial com os EUA ou estão em negociação.
O mais provável é que Bush gastará seu tempo respondendo ao antagonismo cada vez mais estridente do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em vez de promover sua própria agenda para as Américas. A preocupação de que Chávez dê o tom na cúpula e cause constrangimentos a Bush fez com que funcionários americanos lembrassem ao governo argentino que, como hospedeiro da reunião, tem obrigação de garantir a civilidade do encontro. "O nosso desafio é focalizar as discussões nos tópicos que estão sobre a mesa, como a criação de empregos e o crescimento econômico", disse ao Estado um alto funcionário da comitiva de Bush.