Título: 'É melhor Palocci falar logo para as três CPIs'
Autor: Rosa Costa
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/11/2005, Nacional, p. A10
Presidente da CPI dos Bingos, o senador Efraim Morais (PFL-PB) comanda as investigações que atingem o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. É com base nas denúncias recebidas, muitas ainda não divulgadas, que ele sugere ao ministro que tome a iniciativa de depor, o quanto antes, nas três CPIs: Bingos, Correios e Mensalão. O senador avalia que quanto mais esperar pior será para Palocci. Efraim diz que dados em poder da CPI mostram que o esquema de corrupção no governo estaria dividido em dois grupos, um comandado pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (PT-SP), outro por Palocci. O senador rechaça críticas do presidente Lula e de aliados que insistem em condenar o trabalho das CPIs, dizendo que são movidas por interesses políticos. "De nossa parte, o que podemos dizer é que queremos a verdade, com transparência."
Como o senhor avalia os depoimentos dos ex-assessores de Palocci Rogério Buratti e Vladimir Poleto?
Não há dúvidas de que a proximidade de ambos não ajuda o ministro. Ficou provado que sua administração (como prefeito) em Ribeirão Preto e com relação à denúncia da doação de recursos de Cuba, não foi a que se esperava de um homem público. Temos agora de ouvir o secretário particular do ministro, Adermison Ariosvaldo da Silva, que recebeu mais de 50 horas de telefonemas do Poleto. Sabemos que as conversas não tratavam de presentes natalinos ou de outra coisa desse gênero. Ao contrário, sabemos que essa aproximação deles poderia intermediar negócios relacionados ao ministro.
Por que a CPI pediu o indiciamento e a prisão preventiva de Poleto?
O senhor Poleto desmentiu a ele mesmo, é lamentável que venha a um depoimento imaginar que os parlamentares são ingênuos, que a sociedade não sabe o que está ouvindo. Foi um depoimento infeliz e mentiroso. Daí porque o pedido de indiciamento e da prisão preventiva.
Já é hora de o ministro Palocci comparecer à CPI dos Bingos?
Há o entendimento que o ministro vai falar no plenário dia 22, convidado da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). Isso não anula o efeito do requerimento convocando Palocci, que só perderia o valor se seu autor, o senador Geraldo Mesquita (sem partido-AC), decidir retirá-lo. Se eu fosse o ministro, eu diria: "Quero ir para a CPI" e convocaria as três CPIs para me ouvir ao mesmo tempo. Porque ele sabe e nós também sabemos que o poder de CAE não é o mesmo das comissões de investigação. As dúvidas em redor do ministro são tantas que a sociedade não vai se dar por satisfeita com a sua presença na CAE. Se eu pudesse aconselhar o ministro, diria que é melhor ele falar logo para as CPIs.
O sr. acha que Palocci deixará mesmo o cargo se a CPI o convocar?
Prefiro não entrar nesse assunto. Essa decisão é pessoal ou, então, se houver determinação do presidente Lula. Não posso e não devo, como homem de oposição, dizer ao ministro que deixe ou não o cargo. Considero-o um bom ministro, agora ele precisa dar esclarecimentos à sociedade com relação a denúncias que chegam à sua pessoa.
Como o senhor avalia as denúncias contra pessoas do governo?
Não tenho a menor dúvida, e é importante que se diga, que havia dois grupos disputando negócios suspeitos. Se considerarmos o grupo do Waldomiro (Diniz), por exemplo, digo que era ligado a José Dirceu. Já o grupo de Buratti e Poleto era ligado a Palocci. Se separados geraram tantas indagações, imagine o que não faziam quando se encontravam para conversar. O governo Lula tem muito o que explicar. Não adianta dizer que quer a apuração, o que não é verdadeiro, tanto que já vimos o governo todo empenhado para retirar assinaturas de prorrogação da CPI dos Correios.
Os governistas ainda têm como defender o governo?
O objetivo da CPI dos Bingos não é atingir o governo, o que queremos é o esclarecimento dos fatos, nunca tivemos intenção de fazer palanque. Tanto que estamos comprovando que nossas linhas de investigação sempre acabam esbarrando nas máfias dos bingos, da limpeza pública e do crime organizado. Veja por exemplo o assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel. Pesquisa feita pelo Estadão mostrou que 92% dos paulistanos entendem que foi um crime político e não comum, como insiste o governo.
Como presidente da Câmara, o senhor deu posse a Lula na Presidência. O que mudou desde então?
A esperança do povo que estava estampada na Praça dos Três Poderes, lamentavelmente não foi atendida. O que estamos vendo é o governo perder a credibilidade. E não vai ser atacando as CPIs que seus dirigentes vão conseguir mudar essa situação.
A CPI tem algum fato novo com relação ao assassinato de Celso Daniel?
Temos, sim, fatos novos. São documentos que vão comprovar o envolvimento de suspeitos com as máfias, Vamos exibi-los quando do depoimento de pessoas envolvidas no assassinato, como os empresários Ronan Maria Pinto, Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, e o ex-secretário Klinger de Oliveira, convocados para a quinta-feira.
Os advogados ameaçam recorrer à Justiça para derruba as convocações. Qual será a reação da CPI?
A comissão tem cumprido todas as determinações da Justiça, Temos respeitado os habeas-corpus. Não acredito que a Justiça vá dar habeas-corpus ou liminar para que pessoas comprovadamente envolvidas com o crime organizado deixem de comparecer a depoimentos.