Título: Classificação preocupante
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/11/2005, Notas e Informações, p. A3

Apesar dos resultados excepcionais que a balança comercial registra há muitos meses, com recordes sucessivos de exportações e superávits, o Brasil ocupa uma posição desconfortável na classificação internacional de comércio. De acordo com o novo índice criado pela Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), em 2005 o Brasil ficou apenas na 54ª posição, entre 110 países. Está praticamente no ponto central da classificação. Tanto pode ser considerado o pior entre os melhores, como o melhor entre os piores. Nenhuma das duas qualificações é elogiosa. É possível que, se fossem levados em conta apenas os números da balança comercial, a posição brasileira seria melhor. Nos dez primeiros meses deste ano, o Brasil já exportou mais do que em todo o ano passado. Também o saldo comercial do período janeiro-outubro de 2005 é maior do que o de todo o ano de 2004. O governo prevê que, até dezembro, o superávit chegará a US$ 42 bilhões, um recorde histórico, mas economistas do setor privado prevêem um número ainda maior.

No entanto, o novo índice da Unctad, chamado de Índice de Comércio e Desenvolvimento, não se limita aos resultados do comércio exterior dos países estudados. Leva em conta diversos outros fatores que afetam as vendas externas e também o desenvolvimento social e econômico desses países. Quando fatores mais complexos, como o potencial do capital humano de um país ou o real poder de compra de sua população, são combinados, como faz o índice da Unctad, o Brasil cai muito na classificação internacional.

Não há nenhuma surpresa entre os países que lideram a lista. Em primeiro lugar está a Dinamarca. Vêm em seguida Estados Unidos, Reino Unido, Suécia, Noruega, Japão, Suíça, Alemanha, Áustria e Canadá. São países industrializados, com alto grau de desenvolvimento econômico e social. Até a 30ª posição, praticamente só há países de alto nível de desenvolvimento. Apenas três países em desenvolvimento são as exceções, justamente três países asiáticos de rápido crescimento e que, nos últimos anos, conquistaram grandes fatias do comércio mundial: Cingapura, Coréia do Sul e Malásia.

O que pode causar certo espanto é o fato de que a posição brasileira não seja boa nem mesmo entre os países da América Latina e do Caribe. À frente do Brasil na classificação estão Uruguai, Bahamas, Costa Rica, Panamá, Chile, Argentina, Trinidad e Tobago, México e Jamaica. Mas basta um exame rápido dos fatores determinantes do desenvolvimento econômico e humano que a Unctad levou em consideração para entender por que a posição brasileira não é melhor.

Como explicam os responsáveis pelo estudo, as relações entre comércio e desenvolvimento de um país não podem ser medidas apenas em termos de crescimento econômico ou de desempenho de suas exportações. O comportamento do comércio e do desenvolvimento não é estático nem simples, pois combina outras variáveis. Entre estas estão, por exemplo, fatores estruturais e institucionais, como o grau de educação e a saúde da população. São dados que podem revelar a preparação e a produtividade da mão-de-obra de um país.

A infra-estrutura física, que inclui a rede de transportes, o sistema portuário e as comunicações, igualmente afeta o desempenho do comércio exterior e o crescimento econômico. O ambiente financeiro, que depende da existência de um sistema bancário saudável e eficaz, bem como do acesso ao mercado internacional, é outro fator que a Unctad levou em conta para elaborar sua classificação. A qualidade da administração pública, a eficácia das ações do governo, o grau de integração do país no comércio internacional, seu acesso aos principais mercados mundiais, a política nacional de preservação do meio ambiente e indicadores sociais, como renda e igualdade de oportunidades entre os sexos, também são levados em conta.

O Brasil tem desempenho satisfatório quando considerados alguns desses fatores. Mas, com relação a outros, sua posição é ruim. A combinação de todos eles mostra um país que precisa resolver muitos problemas para melhorar seu desempenho e, assim, ocupar uma posição melhor na classificação internacional.