Título: Rebelião pode pôr fim a sonho político de Sarkozy
Autor: Reali Júnior
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/11/2005, Internacional, p. A12
Fracasso em conter a violência e expressões infelizes do ministro do Interior derrubam sua até agora alta popularidade como candidato à presidência da França
Nicolas Sarkozy, ministro do Interior e candidato declarado à presidência da França, está no epicentro do terremoto político causado pelos graves distúrbios que ocorrem desde o dia 27 na Grande Paris e agora em toda a França. A derrapagem verbal dele, usando o termo "gentalha" para definir os jovens dos subúrbios, e a morte de dois manifestantes menores de idade, eletrocutados dentro de uma caixa de transformador, deflagraram a crise. Nem o primeiro ministro Dominique de Villepin nem o presidente Jacques Chirac (qfue se manteve em silêncio até ontem) correm tanto risco de se transformar numa carta queimada no jogo político francês. Uma pesquisa publicada pelo jornal Le Parisien indica que a imagem de Sarkozy começa a se deteriorar: 50% dos franceses começam a duvidar da eficácia da estratégia de campannha dele - presença exagerada na mídia e uso de expressões chocantes. Isso é desastroso para quem já se imagina no lugar de Chirac no Palácio do Eliseu, a partir de maio de 2007.
Outra constatação da pesquisa, feita pelo instituto CSA: 66% dos ouvidos acham que o ministro do Interior privilegia demasiadamente a repressão em detrimento da prevenção.
Hoje, a ação e estilo dele já são fortemente contestados. Mesmo assim, Sarkozy continua priorizando a linha dura no combate à violência urbana. A direita clássica francesa e um grande número de partidários da extrema direita apóiam a política do ministro do Interior. Entre os jovens, ele não encontra grande apoio. Suas intervenções são consideradas espalhafatosas por 82% dos jovens de 18 a 24 anos. Esta é a mesma opinião de 83% dos eleitores de esquerda. Mesmo entre as pessoas acima de 50 anos, 69% acham que termos como "gentalha", usado por Sarkozy em Sevran, são chocantes, principalmente saindo da boca de um ministro que sonha ser presidente. O exagero verbal de Sarkozy contraria também membros do próprio partido dele.