Título: Relatório da CPI sai hoje e rejeita versão de empréstimo
Autor: Eugênia Lopes
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/11/2005, Nacional, p. A4
Nas suas 60 páginas, Serraglio insistirá em que isso não passa de 'simulação' e recursos de bancos não pagaram mensalão
Pivô da crise política que se arrasta há cinco meses, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza será a estrela do primeiro relatório parcial da CPI dos Correios, que será divulgado hoje. O documento vai afirmar que os empréstimos oficialmente contraídos por Marcos Valério não passam de uma "simulação' para justificar a origem dos recursos do mensalão. O documento também vai pedir o indiciamento de Marcos Valério e de Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT. Nessa primeira etapa, a CPI ainda não vai entrar no mérito sobre a existência ou não do esquema do "mensalão". O relatório também não deverá abordar os contratos de Valério com o governo. "Ainda não temos elementos para analisar esses assuntos com profundidade", admitiu o relator da CPI, deputado Osmar Serraglio.
Em cerca de 60 páginas, o foco exclusivo do documento será o desmonte da versão dos empréstimos bancários, que é a linha de defesa de Valério e de Delúbio para justificar a origem dos recursos do mensalão. É a explicação técnica de como essas operações foram "simuladas" que vai fundamentar a recomendação de indiciamento de Delúbio e Valério ao Ministério Público e à Polícia Federal.
VERSÃO SUSPEITA
Ambos garantiram à CPI, ao Ministério Público e à Polícia Federal que os R$ 55 milhões que foram distribuídos aos parlamentares da base aliada do governo tiveram como origem empréstimos contraídos junto ao Banco Rural e ao Banco BMG. A análise dos técnicos da comissão pretende mostrar, no entanto, que essa versão não se sustenta e que, por isso, os dois devem ser indiciados.
"O relatório vai deixar claro como os empréstimos foram uma complexa simulação para escamotear a verdadeira origem do dinheiro", adiantou ao Estado o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), que é o sub-relator de Movimentação Financeira da comissão. As razões para chegar a essa conclusão estarão esmiuçadas pelos técnicos no relatório.
Entre outros dados, a análise das contas de Valério revela que os empréstimos não foram cobrados, não foram canalizados para os pagamentos aos parlamentares e não constavam da contabilidade das suas empresas. Ou seja, foram claramente uma operação para "esquentar" o dinheiro. Depois de seguidas discussões e debates internos, na última hora a CPI optou por um documento "menos explosivo", nas palavras de um dos parlamentares envolvidos na redação do documento. "Menos explosivo" significa mais amarrado à análise técnica das contas, sem entrar em temas delicados, como o papel das estatais dentro do esquema e os contratos de Valério com o governo. "Vamos somente fazer referências superficiais a participação das estatais", afirmou Serraglio.
O motivo da cautela é o medo de que o documento não seja aprovado pelo plenário da comissão. O governo mandou vários recados aos relatores alertando que iria trabalhar contra a aprovação do relatório, caso seu conteúdo fosse considerado "belicoso". Ontem, técnicos e parlamentares passaram o dia tentando chegar a um consenso sobre o "tom" do documento, principalmente o capítulo sobre Delúbio Soares, objeto de preocupação do governo. Por isso, limaram adjetivos e deixaram apenas termos técnicos.