Título: Oposição decide hoje se ministro terá de ir à CPI
Autor: Expedito Filho, Rosa Costa
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/11/2005, Nacional, p. A8

Virgílio diz que acusações a Palocci chegaram "a um nível intolerável"

A oposição decide hoje se vai convocar o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para depor na CPI dos Bingos. De acordo com o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), as acusações contra Palocci chegaram a "um nível intolerável para quem conduz o Tesouro Nacional". Citou entre elas a que foi publicada domingo no Estado sobre a existência de documentos que comprovariam que a empresa de coleta de lixo Leão Leão abastecia o caixa 2 do PT por intermédio da prefeitura de Ribeirão Preto, à época administrada por Palocci. O senador frisou que o ministro está sob ataque dos fatos e não da oposição. Virgílio disse que vai conversar com seus colegas do partido e do PFL sobre a convocação. "Não podemos ir até o fim fingindo que não estamos vendo as coincidências, as denúncias, desmentidas tantas vezes por todo mundo, de repente virar verdade."

O apoio do PFL é dado como certo. O presidente do partido, senador Jorge Bornhausen (SC), disse ontem que discorda daqueles parlamentares de oposição que querem poupar o ministro da Fazenda. Segundo ele, o depoimento não afetaria o mercado financeiro. "O mercado se orienta muito mais pela conjuntura mundial, que é favorável."

Virgílio disse que, apesar de considerar imprescindível ouvir o ministro, sente-se constrangido pela situação. "Minha posição neste momento é dizer que eu gostaria de anestesiar o Palocci e dividi-lo em dois", explicou. Segundo o líder, anestesiá-lo seria uma forma de impedir que ele sofra dor, quando for dividido entre o ministro que ele admira, "que faz um bom trabalho, e o outro lado, o do prefeito de Ribeirão, cheio de amigos complicados e de relações nebulosas".

Até agora, Virgílio integrava a blindagem da oposição contrária à convocação do ministro, sob a alegação de que era melhor preservá-lo para evitar atritos na economia. O senador disse que a oposição "protegia" o ministro na suposição que os episódios anteriores, como a suposta extorsão da Gtech, multinacional que então operava as loterias da Caixa Econômica Federal, levada a cabo por ex-assessores seus, seria o primeiro e último caso a envolvê-lo. "Fomos super condescendentes, mas chega!"

Para o líder, o quadro da economia hoje mostra que ela não será abalada nem mesmo se Palocci decidir depor. "Acredito, sim, que é constrangedor ele vir, não sei se virá como ex- ministro ou como ministro", disse. "Mas vejo os mercados absolutamente tranqüilos, vejo um momento positivo da economia brasileira e acho que o Brasil suporta inclusive transições."

O presidente do PFL listou alguns casos que, segundo ele, envolvem direta ou diretamente o ministro da Fazenda em esquemas irregulares. Entre eles citou os do IRB-Brasil Resseguros (suposto de desvio de recursos para partido da base aliada) e a denúncia de envolvimento de ex-assessores de Palocci em suposta contribuição de US$ 3 milhões de Cuba para a campanha de Lula, em 2002.