Título: Europa lança missão a Vênus
Autor: Cristina Amorim
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/11/2005, Economia & Negócios, p. A18
Depois de Marte, agora é a vez de o outro vizinho da Terra ser pesquisado por uma sonda espacial européia
Deixe um pouco Marte de lado e vire os telescópios para outro ponto brilhante do céu. Hoje, a Agência Espacial Européia (ESA) lança a sonda Venus Express para descobrir os segredos ainda não revelados do nosso outro vizinho planetário. Se os planos da ESA deram certo, à 1h33 (horário de Brasília) de hoje um foguete russo Soyuz partiu do Casaquistão com o aparelho a bordo, para uma viagem de 155 dias, quase cinco meses, até o segundo planeta mais próximo do Sol. É a primeira missão européia para Vênus e parte de um programa mais extenso de estudo do sistema solar. Em retrospectiva, pode-se pensar que não há mais novidades por trás da densa atmosfera venusiana. Quatro sondas americanas já estudaram Vênus - a última mapeou 99% de sua superfície - e robôs russos desceram para obter imagens e análises químicas do solo. Mas nem todas as perguntas foram solucionadas. Meio-irmão da Terra, Vênus foi formado ao mesmo tempo e na mesma parte do sistema solar. O material cósmico que constitui os dois é similar, assim como seu tamanho e massa. Só que as semelhanças param por aí. O planeta apresenta características que não são vistas em nenhum outro integrante do sistema solar. Terra e Vênus têm atmosferas completamente diferentes, com a venusiana composta quase totalmente por dióxido de carbono, mais um pouco de vapor d´água. Tal composição provoca um efeito estufa que faz de Vênus o planeta mais quente das redondezas: 460 C na superfície na região do equador. Segundo Håkan Svedhem, cientista envolvido no projeto, a causa para o aquecimento pode ser algo que não existe mais por lá: água líquida, que evaporada agiu como um gás do efeito estufa. 'Então, quando a temperatura subiu ainda mais, as rochas na superfície começaram a emitir dióxido de carbono, que ainda pode levar ao aumento da temperatura', explica. A temperatura é distribuída pelo planeta por ventos que demoram cerca de quatro dias terrestres para circundá-lo. Eles são mais rápidos do que a rotação do planeta, que anda a 6,5 quilômetros por hora. Ou seja: um dia venusiano dura o mesmo que 243 dias terrestres. Svedhem diz que o foco da missão é mesmo a atmosfera, mas há 'muitas perguntas em aberto'. Uma delas é a natureza da superfície, uma das mais jovens do sistema solar. 'Ela foi completamente modificada há cerca de 500 milhões de anos, quando estava inundada por lava', diz. 'Vamos estudar se o processo já terminou ou continua ativo.' CLASSE ECONÔMICA A Venus Express inova também por gastar pouco, pelo menos comparado com o orçamento geralmente empregado em missões espaciais. Serão gastos US$ 260 milhões (cerca de 22 milhões) para colocar a sonda na órbita de Vênus. A Venus Express partilha muitos instrumentos com a Mars Express, sonda que foi lançada em 2003 para estudar Marte, e com a Rosetta, enviada no ano passado para desvendar um cometa. Só a Rosetta consumiu 1 bilhão. Houve, portanto, economia de dinheiro e tempo. Com isso, a ESA aplica um conceito que era defendido pelo antigo diretor da Nasa (agência espacial americana) Daniel S. Goldin: 'Better, faster, cheaper' (ou 'melhor, mais rápido e mais barato'). A política gerou o robô Mars Pathfinder, que em 1997 forneceu fotos e dados de Marte por um décimo do orçamento empregado em missões anteriores. A tese agora será defendida pelos europeus. ?