Título: Europeus querem mais dos EUA, que querem mais dos europeus
Autor: Jamil Chade
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/11/2005, Economia & Negócios, p. B6
Em um debate acalorado, a União Européia (UE) alertou que somente aceitará uma data para a eliminação dos subsídios à exportação até 2010, como quer o Brasil, se os Estados Unidos também tomarem providências para reformar seus mecanismos de apoio à agricultura, como créditos à exportação. Durante reunião de ontem em Genebra entre os ministros do Brasil, Europa, EUA, Japão e Índia, tentou-se fechar uma lista de temas que poderão ser incluídos na agenda da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Hong Kong e, assim, manter as esperanças para que as negociações terminem em 2006, como planejado.
Na avaliação do chanceler Celso Amorim, os europeus estão passando uma idéia de que têm espaço para flexibilizar suas posições em Hong Kong e de que há espaço para estreitar as diferenças entre os países. "Essa é a minha impressão", disse o ministro, que durante a reunião fez a proposta de uma eliminação dos subsídios à exportação até 2010. "O tema da eliminação dos subsídios estava no congelador e conseguimos fazer que voltasse a ser debatido", disse, indicando que há "espaços para aproximações".
Mas o próprio embaixador do Brasil na OMC, Clodoaldo Hugueney, mais tarde deu outra versão e afirmou que Bruxelas não deu qualquer sinal de flexibilização durante o encontro. "Os europeus repetem que não têm mais o que oferecer. Tenho minhas dúvidas se os países de fato estão politicamente prontos para negociar."
A realidade é que Bruxelas não tomará uma nova iniciativa enquanto os americanos não derem sinais de que também podem flexibilizar suas posições, principalmente sobre subsídios. Já Washington se defende alegando que não irá reformar seus mecanismos de apoio doméstico se os europeus não ampliarem seus cortes de tarifas.
O Brasil acaba em uma posição intermediária e vem tentando se aliar a Washington para conseguir pressionar a UE.
Nos últimos dias, o Brasil chegou até mesmo a suspender um pedido de retaliação que tinha contra Washington na OMC por causa do algodão. Nem todos estão de acordo com essa estratégia. "Por que não se aliar à Europa para pressionar os Estados Unidos e deixar que Bruxelas pressione Washington a reduzir seus subsídios", questiona Pedro Camargo Neto, da Sociedade Rural Brasileira.
A realidade é que os americanos até agora não dão sinais de que irão reformar seus subsídios até Hong Kong e tentam transferir a responsabilidade.
"As propostas americanas representam um retrocesso. Se a prioridade do Brasil é combater os subsídios, o País nunca poderia se aliar com um governo que não propõe uma redução de subsídios", disse Camargo.
ESTRATÉGIA
Já admitindo que não terão em Hong Kong um acordo final, os governos agora tentam dar conteúdo ao encontro em dezembro. A estratégia foi a de esvaziar em parte a conferência para evitar um fracasso e construir, a partir daí, uma agenda com pontos positivos que possam servir de plataforma para 2006. "A negociação deveria se concentrar no progresso feito até aqui e pôr um trampolim para avançar em 2006", disse o comissário de Comércio europeu, Peter Mandelson.
Para o representante da Casa Branca, Rob Portman, as expectativas são baixas para Hong Kong. "Não vamos esperar um acordo final", disse, lembrando que deve haver uma nova reunião no início de 2006. Já Amorim alerta que sem alguns pontos acertados em Hong Kong dificilmente a Rodada Doha conseguirá ser fechada no final de 2006, como planejado. "Acho que podemos correr um riscose a agenda de Hong Kong for minimalista", disse o ministro, que hoje está na África para reuniões com ministros do continente. No avião do governo, Amorim aproveitou para dar uma carona ao diretor da OMC, Pascal Lamy.
O esforço de ontem, portanto, foi o de criar uma lista de temas que possam ser aprovados em Hong Kong. Os temas serão negociados pelos embaixadores desses cinco governos em Genebra nos próximos dias, até que os ministros voltem a se reunir na OMC no início de dezembro. No pacote, subsídios, serviços e produtos industriais.
O Brasil ainda acredita que Hong Kong pode estabelecer um acordo de que o corte de tarifas para produtos agrícolas ocorrerá em quatro níveis diferentes. Outro ponto defendido pelo Brasil seria a garantia de um paralelismo entre o que os países emergentes ganharão no setor agrícola e o que irão oferecer no setor industrial.
O que cada um pode oferecer em cada setor, porém, está sendo guardado com bastante cuidado pelos países. "Os países estão pondo suas cartas sobre a mesa e esperam algo em troca, mas não posso revelar ainda quais são", afirmou Portman, representante americano.