Título: Fome mata 6 milhões de crianças
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Fonte: O Estado de São Paulo, 23/11/2005, Vida&, p. A19
Cerca de 6 milhões de crianças morrem a cada ano pela fraqueza de seu sistema imunológico causada por fome e desnutrição, o que as torna incapazes de superar doenças infecciosas curáveis, como diarréia, sarampo e malária. O número é equivalente a aproximadamente toda a população pré-escolar do Japão. A denúncia está no último relatório sobre a situação da fome no mundo da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), que lembra que na fome e na má nutrição estão as piores conseqüências da pobreza. O documento, apresentado ontem em Roma na 33ª conferência bienal do organismo da ONU, ressalta que combater a desnutrição que atinge 852 milhões de pessoas, segundo as últimas estimativas da FAO (2004), é indispensável para alcançar todos os objetivos de desenvolvimento do milênio.
Reduzir a fome e a pobreza extrema até 2015 é o primeiro desses objetivos, que os líderes de 189 países se comprometeram a cumprir na cúpula de 2000 e incluem, além disso, o acesso à educação, a igualdade de gêneros, a luta contra a mortalidade infantil, a aids e outras doenças, a melhora da saúde materna e a sustentabilidade do meio ambiente. "A maior parte desses objetivos não será alcançada sem um compromisso mais efetivo e progressos mais rápidos", advertiu o diretor da FAO, Jacques Diouf, no prefácio do relatório.
PROGRESSO
As notícias mais encorajadoras nesse sentido provêm da América Latina e do Caribe, a única região em desenvolvimento que reduziu a fome suficientemente rápido desde 1990 a ponto de poder alcançar a meta estabelecida nos objetivos de desenvolvimento do milênio, segundo o documento.
A região Ásia-Pacífico também tem "boas possibilidades", indica a FAO, enquanto as más notícias vêm, mais uma vez, da África subsaariana, onde a fome diminui "muito lentamente". Embora haja progressos desde 1990, "será necessário que a região aumente consideravelmente seu ritmo" se quiser cumprir os objetivos do milênio, insiste o relatório.
O estudo também adverte que a incidência de fome no Oriente Médio e no norte da África é baixa, mas, ao invés de diminuir, tem aumentado nos últimos dez anos numa tendência que parece contínua e tem de ser revertida para que os objetivos sejam alcançados.
A FAO ressalta, ainda, que os progressos foram mais difíceis justamente nos países onde há mais fome: só 4 dos 16 nos quais mais de 35% da população sofre desnutrição registram progressos, enquanto no restante o índice não apresenta variações ou, pior ainda, aumenta.
Esse grupo inclui 13 países da África subsaariana e o Haiti, segundo dados do período 2000-2002 (o relatório divulgado hoje não atualiza o número de famintos; uma nova estimativa está prevista na edição de 2006).
NAS ZONAS RURAIS
A FAO insiste que a luta para eliminar a fome será decidida nas zonas rurais, onde vivem três de cada quatro pessoas com fome. "Nessas regiões reside a grande maioria dos quase 11 milhões de crianças que morrem antes de completar 5 anos, das 530 mil mulheres que morrem durante a gravidez ou o parto e dos 300 milhões de casos de malária aguda", lembra a agência.
Para acabar com a fome, a FAO ressalta que é necessário aumentar a produção agrícola por meio de investimentos, boa administração, estabilidade política e manutenção da paz, além de "educação de qualidade para as crianças nas áreas rurais e a melhoria da condição da mulher".
Chegar a esses fatores em um ritmo mais rápido que o atual é indispensável, diz a FAO, para que nos próximos dez anos comece a se tornar realidade a afirmação feita na Cúpula Mundial sobre a Alimentação: "Todas as pessoas têm o direito fundamental de não passar fome".