Título: França procura aliados contra Brasil
Autor: Jamil Chade
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/11/2005, Economia & Negócios, p. B12

Na OMC, enviado francês se reúne com latino-americanos e tenta convencê-los a atacar proposta brasileira, mas estratégia fracassa

GENEBRA - A França passou definitivamente para o ataque nas negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC) e convoca reuniões com países latino-americanos em Genebra sem convidar o Brasil. Paris enviou nos últimos dias um representante especial para tentar convencer os países em desenvolvimento a adotar a agenda do presidente Jacques Chirac na reunião ministerial da OMC em Hong Kong em dezembro e ainda insinuou que o Brasil não tinha os mesmos interesses do resto da região. Os franceses têm sido o principal obstáculo dentro da Europa em relação a uma abertura de seus mercados agrícolas. Bruxelas, que negocia acordos comerciais em nome dos 25 membros da União Européia, está sob ataques de Paris, que alega que as concessões estão sendo exageradas.

De um lado, Brasil e Estados Unidos querem uma redução importante das tarifas de importação dos europeus.

Bruxelas, porém, não aceita e ainda pede concessões dos países emergentes em termos de acesso a esses mercados para produtos industriais e serviços. O resultado do impasse foi o abandono do projeto inicial de Hong Kong: o estabelecimento de um acordo sobre o ritmo e profundidade das liberalizações.

Os europeus, temendo serem identificados como culpados pelo fracasso, querem agora o apoio de alguns países para aprovarem um pacote de ajuda aos países mais pobres. O Estado apurou que nas reuniões dos últimos dias, Paris sugeriu medidas como a redução de subsídios ao algodão para favorecer os americanos, medidas que facilitem os fluxos comerciais e um fundo de financiamento para ajustes econômicos. Todas as iniciativas propostas, porém, exigem mais esforço da parte dos EUA que da UE.

Quarta-feira, o representante francês e ex-vice-diretor da OMC, Paul-Henri Ravier, esteve reunido com Colômbia, Paraguai, Uruguai, Chile, Costa Rica e México para tentar convencê-los a seguir a linha de Chirac. Na missão brasileira em Genebra, diplomatas desconheciam que a reunião entre a França e os países latino-americanos tinha ocorrido.

"Estão tentando nos fazer de bobos", afirmou um embaixador que esteve no encontro. Para outro diplomata, os franceses insistiram que o Brasil vive em uma outra situação por ser uma superpotência agrícola. "Deixamos claro aos franceses que estamos do lado do Brasil", afirmou um dos participantes.

DIÁLOGOS

Para tentar evitar ser caracterizado como um país que briga por temas contrários aos interesses dos demais países em desenvolvimento, o Brasil decidiu enviar o chanceler Celso Amorim para uma reunião na África na quarta-feira com os demais ministros do continente para tentar uma aproximação de posições.

Antes, na terça-feira em Genebra, os ministros de Brasil, EUA, Europa e Índia voltam a se reunir para tentar um entendimento sobre o que será feito em Hong Kong. Ontem, os principais atores das negociações voltaram a se falar.

O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, está tentando influenciar no conteúdo da declaração de Hong Kong e defende que números e cifras de cortes de tarifas ou de subsídios já sejam incorporados ao texto. Para os países, diante da falta de consenso, não seria apropriado sequer uma referência a possíveis números.