Título: Brincando com a aftosa
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Fonte: O Estado de São Paulo, 18/11/2005, Nacional, p. A3

O governo de São Paulo tomou uma decisão perigosa ao relaxar as defesas contra a aftosa. Com a abertura das fronteiras e a redução das barreiras protetoras, o rebanho paulista é exposto a um risco injustificável, depois de 10 anos sem um único foco da doença. Foram liberados na quinta-feira o ingresso e o transporte de animais e produtos provenientes de Mato Grosso do Sul e do Paraná. Foi também autorizada a realização de feiras, leilões e outros eventos com a presença de animais expostos a contágio.

Também foi permitido o ingresso, no Estado, de carregamentos de carne com osso, um produto normalmente vetado quando se criam barreiras contra a febre aftosa.

Foram definidas condições para o comércio e o transporte desse produto. Com isso, o governo do Estado de São Paulo assumiu um risco a mais e complicou um dos itens de sua pauta de fiscalização sanitária.

Segundo as autoridades, a Secretaria da Agricultura tomou todas as precauções para evitar a importação da aftosa de outros Estados.

Foram definidos corredores de trânsito para animais e produtos. Será permitido o ingresso apenas de bovinos e bubalinos provenientes de áreas distantes no mínimo 10 quilômetros dos municípios com casos da doença ou onde haja suspeita de focos.

Além disso, os animais deverão ter permanecido pelo menos 90 dias nesses locais considerados seguros.

Apesar desses cuidados, a decisão foi precipitada. O governo paulista pode controlar o transporte de animais no território do Estado. Pode exigir documentação indicadora de origem. Mas não pode vigiar a movimentação nos Estados de onde provêm os animais.

No caso de Mato Grosso do Sul, o novo surto foi possibilitado por evidentes falhas de fiscalização. Pode-se discutir se as falhas foram federais ou estaduais, mas isso não torna menos necessária uma enorme cautela nos demais Estados.

O governo paulista não tem razão para considerar superado o problema em Mato Grosso do Sul, nem para avalizar as medidas de segurança anunciadas naquele Estado.

Além disso, o sacrifício de animais nas áreas com focos da doença ainda não foi completado, no mínimo por causa da resistência de criadores.

No Paraná, a vacinação ainda não se completou e a situação sanitária do rebanho é incerta. O governo federal reagiu com cautela ao anúncio do resultado de exames de laboratório.

Segundo a informação divulgada há poucos dias, não se confirmou a ocorrência de aftosa nas áreas postas sob vigilância. Mas, diante da insegurança das autoridades federais, como justificar a iniciativa do governo paulista?

Enfim, nem o rebanho do Estado de São Paulo foi totalmente vacinado na atual campanha. A cobertura atingiu 85% dos animais, segundo afirmou o secretário da Agricultura, Antônio Duarte Nogueira Júnior. O trabalho deve estender-se até o fim do mês.

"Com este nível de proteção vacinal e a criação dos corredores sanitários para o ingresso de animais para abate", disse o secretário, "garantimos a sanidade do nosso rebanho."

Como ele mesmo reconheceu, no entanto, a decisão do governo paulista foi uma resposta às demandas do setor privado.

Ele não forneceu detalhes sobre as demandas, mas, segundo fontes da agropecuária, as pressões pelo relaxamento do controle foram intensas e partiram, certamente, de setores mais preocupados com o lucro no curto prazo.

Para o anúncio da liberação, o governo montou um cenário próprio para eventos de grande importância. A cerimônia, presidida pelo governador Geraldo Alckmin, foi no Palácio dos Bandeirantes, com presença de pecuaristas, industriais e trabalhadores de frigoríficos.

Essa precipitação poderá custar muito caro à economia de São Paulo. A erradicação da aftosa, no Estado, resultou de um trabalho demorado, minucioso e persistente.

Ao pôr em risco os resultados desse trabalho, para atender a grupos com interesses imediatistas, o governador Geraldo Alckmin desrespeitou uma das marcas de sua administração e do governo de seu antecessor, Mário Covas: a preocupação com resultados sólidos e duradouros.