Título: Saída de Palocci já não é tabu para empresários
Autor: Marcelo Rehder
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/11/2005, Economia & Negócios, p. B3
Entidades pressionam por mudanças na política econômica e já vêem troca do ministro como uma possibilidade
Lobbies empresariais aproveitam o momento de enfraquecimento do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para aumentar a pressão por mudanças na política econômica. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) chegou a pedir publicamente a demissão de Palocci, em carta enviada ao presidente Lula. ¿É chegado o momento, sr. presidente, da substituição da atual equipe que conduz as políticas econômica e monetária do governo, que não está vendo o País sendo arrastado por uma crise de proporções inéditas¿, diz a carta. Depois, em entrevista ao Estado, o presidente da Abimaq, Newton de Mello, disse que ¿não gostaria de ver Palocci cair ou renunciar por conta da CPI, mas por conta da inadequação da sua política econômica ¿ ele e o presidente do Banco Central (Henrique Meirelles)¿. ¿Gostaria que isso ocorresse inclusive antes do desfecho da CPI¿, acrescentou.
Na carta, a Abimaq chega a sugerir que Palocci seja substituído pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e Meirelles, pelo atual presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Guido Mantega, visto como um ¿desenvolvimentista¿. A reclamação dos empresários é antiga: os juros elevados e o câmbio supervalorizado têm provocado o estrangulamento da produção. Além disso, há questionamentos sobre a manutenção das metas de superávit primário, de 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB), que inviabilizam investimentos públicos em áreas importantes como infra-estrutura e logística.
¿O modelo neoliberal seguido por Palocci e Meirelles, que perseguem metas de inflação irreais e superávits primários fantasiosos, está provocando uma crise econômica que demorará anos para ser superada¿, afirma o presidente da Abimaq.
Segundo Mello, a retração do segmento de máquinas agrícolas, cujas vendas despencaram 50% este ano, já se alastra para o setor como um todo. Em setembro (último dado disponível), as vendas de máquinas e equipamentos no País caíram 9,5% em relação ao mês anterior. A queda das exportações foi de 3,5% e das importações, de 16,8%. ¿Se as empresas estão comprando menos máquinas, a produção de bens também está caindo.¿
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também voltou a criticar a política econômica. De acordo com Paulo Skaf, presidente da entidade, os empresários não temem a saída de Palocci do governo. Até há pouco tempo, o ministro era visto no meio empresarial como o grande fiador do governo e, por isso, temia-se que sua saída provocasse uma crise de confiança na administração Lula. Agora, os empresários dizem que a política econômica independe de nomes.
¿O Brasil é maior do que qualquer brasileiro. É possível mudar a política econômica com o mesmo ministro, assim como é possível não mudar a política mesmo mudando o ministro. O que precisamos é de uma redução mais acelerada dos juros, com a recuperação do câmbio, e de um choque de gestão para redução dos desperdícios nos gastos públicos¿.
Para o presidente da Fiesp, é necessário ainda ampliar o Conselho Monetário Nacional (CMN), que define a política econômica a ser seguida. ¿Vamos fechar o ano com crescimento de 3%, enquanto os países emergentes vão crescer de 7% a 8% e a Argentina, 9%. Precisamos crescer acima da média mundial, e de forma sustentável.
SEM DEFESA
Além de fustigado por denúncias de corrupção em sua administração na Prefeitura de Ribeirão Preto (SP), Palocci também enfrenta forte divergência da ministra Dilma às suas propostas. O próprio presidente Lula, no decorrer da semana passada, deu sinais desencontrados sobre a permanência de Palocci no governo.
Na quinta-feira, dia em que o ministro da Fazenda foi à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Lula elogiou publicamente as realizações da política econômica, sem citar o ministro. No dia seguinte, o presidente elogiou a ministra Dilma, citando cinco vezes o nome dela em discurso no Planalto.
Apesar da elevação no tom das reclamações, ainda não há consenso entre os empresários. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, por exemplo, critica a posição do colega paulista. ¿Todos que forem favoráveis à flexibilização da meta de inflação estão fazendo um gigantesco desserviço à sociedade brasileira¿.
Para Synésio Batista da Costa, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Brinquedos (Abrinq), a política econômica precisa ser mudada, mas o momento não é apropriado. ¿Não se muda a política em 24 horas, mesmo com troca de ministro. Não é hora de conflitos, é hora de as empresas e as instituições se posicionarem para o próximo ano¿.