Título: Com o Brasil, Venezuela é ruim para o negócios
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/11/2005, Internacional, p. A12

O presidente e amigo Hugo Chávez, da Venezuela, com quem o presidente Lula mantém um relacionamento privilegiado, é ruim para negócios. Gasta no mundo nebuloso do mercado internacional de produtos de defesa o bom dinheiro do petróleo a US$ 60 o barril - mas enrola quanto pode as decisões quando o vendedor é o Brasil. Depois de ter anunciado em fevereiro compras no mercado brasileiro de aviões militares no valor de US$ 450 milhões, Chávez não tomou nenhuma iniciativa para passar da intenção à ação. A encomenda feita à Embraer envolvia 24 novos turboélices Supertucano de ataque leve, mais 12 caças-bombardeiros AMX-T e o serviço de modernização da frota local de 18 aviões Tucano da primeira geração.

Um mês depois, sem que memorandos e protocolos de intenções circulassem entre os governos dos dois países, Chávez fez uma consulta ao Palácio do Planalto sobre a possibilidade de expandir o trato - de resto, até agora inexistente - para mais dois jatos Emb-145, nas configurações de inteligência do mesmo tipo empregado pela FAB na vigilância e defesa da Amazônia. A resposta foi favorável e chegou a Caracas no mesmo dia.

O pedido dos jatos AMX, um pacote de US$ 260 milhões definido em novembro de 2002 e paralisado pela falta de um agente financiador, ganhou em março uma linha especial de crédito do BNDES. A Venezuela ignorou a oferta e não ativou o processo.

Em outro programa, o Exército venezuelano escolheu fornecedores brasileiros de Barueri, na região metropolitana de São Paulo, para cuidar da revitalização de cerca de 60 blindados, comprados nos anos 80 da extinta Engesa. São modelos de transporte de tropas Urutu EE-11, principalmente. Chávez não avalizou a operação proposta pelo seu comando do Exército.

A hesitação na hora de ir às compras de equipamentos militares é só com o Brasil. Ao longo de oito meses, o Ministério da Defesa de Caracas gastou 1,7 bilhão na Espanha para encomendar 4 corvetas, 4 lanchas de patrulha costeira e mais 10 aviões de carga C-295.

No mesmo período, Hugo Chávez assinou na Rússia o pedido do primeiro grupo de 16 helicópteros de ataque e transporte de um total de 41 unidades a serem entregues gradualmente. Em maio, o ministro Jorge Carnero referendou a aquisição de 100 mil fuzis AK-47 Kalashnikov. Os primeiros 30 mil já estão sendo recebidos. Uma linha de montagem da arma de assalto será instalada em uma cidade industrial no interior do país. A fatura completa chega a US$ 55 milhões.

A Brigada de Forças Especiais encomendou perto de 800 capacetes dotados de recursos digitais para permitir visão noturna, comunicações integradas com várias fontes e até recepção de sinais de satélite. Apenas um esquadrão de operações antiterrorismo baseado em Moscou emprega esse equipamento.

O prato de resistência dessa ampla cooperação russo-argentina é o fornecimento de 50 caças supersônicos. Seriam versões SMT do MiG-29, as mais avançadas. Mas o interesse mudou, e a Força Aérea Venezuelana (FAV) ambiciona há três meses o Sukhoi Su-27, cmais moderno, com abrangente sistema de armas. Para isso Chávez mantém em Moscou uma comissão militar técnica. O negócio é de cerca de US$ 5 bilhões.

Bem-sucedido em todos os movimentos no mercado de armas - há transações em andamento envolvendo canhões da Aústria, mísseis e sistemas eletrônicos da Grã Bretanha, helicópteros da França e munições diversas da Bélgica -, Chávez sofreu o primeiro revés em outubro, quando o governo dos EUA embargou a venda pela Indústria Aeroespacial de Israel, de kits digitais que empregam tecnologia dos EUA, para atualização eletrônica dos caças F-16A Falcon americanos, comprados pela FAV há cerca de 20 anos.

O mesmo veto imposto sobre as embarcações e cargueiros leves da Espanha.