Título: 'A China crescerá pacificamente'
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/11/2005, Internacional, p. A24
Conselheiro presidencial afirma que o gigante asiático não tem tempo nem interesse em desenvolver tendências hegemônicas
Zhang Bijian é um íntimo conselheiro do presidente chinês, Hu Jintao. Quando Hu, pouco antes de se tornar presidente, era diretor da Escola Central do Partido Comunista, onde são moldadas muitas das idéias do PC, Zhang era vice-diretor. Depois que Hu chegou ao poder, Zhang passou a liderar o Fórum de Reforma da China, grupo de estudos ligado ao governo que trabalha para garantir que a ascensão da China na comunidade global seja pacífica. Ele conversou em Pequim com Jehangir S. Pocha, correspondente de Global Viewpoint na capital chinesa. O sr. é conhecido por afirmar que a ascensão da China será completamente pacífica, mas como pode convencer o mundo de que será assim?
Em 2030 ou 2040, a China terá mais de 1,5 bilhão de habitantes. Dada nossa necessidade de nos desenvolver e dar a essas pessoas uma vida decente, precisamos de uma estratégia sábia, coerente com os valores atuais. Para garantir a ascensão pacífica da China, promovemos três estratégias destinadas a superar três desafios. Os desafios são: obter acesso a recursos e energia; administrar e manter nosso ambiente e nossa ecologia; e garantir o "desenvolvimento harmonioso", sem conflitos de classe, sociais ou regionais, à medida que a economia cresça. Quanto às estratégias que estamos adotando para lidar com isso, a primeira é abandonar os velhos métodos industriais e construir empresas voltadas para o futuro. É por isso que o desenvolvimento científico é essencial para nós. Também queremos continuar nos abrindo, conectando-nos com a economia global, desenvolvendo a cooperação internacional, alcançando situações em que todos ganham. Finalmente, queremos superar o modelo de sociedade injusto e antiquado para construir uma sociedade mais culta e harmoniosa. Tudo isso levará de 30 a 50 anos e nossa população será então de 1,5 bilhão. Assim, simplesmente não temos tempo ou interesse para desenvolver tendências hegemônicas - nem agora, nem no futuro.
Se isto acontecer, será a primeira vez na História que uma nação tão grande ascende pacificamente.
Somos totalmente diferentes do Japão, Alemanha ou União Soviética, cuja ascensão levou à guerra. Podemos planejar nosso caminho de uma maneira diferente porque vivemos em novos tempos e condições. Como nação, também temos objetivos e um caráter diferentes. Hoje, não vejo uma grande guerra acontecendo no futuro. Sabemos que, para desenvolver a China, precisamos ser parte do sistema global, e não subvertê-lo com violência, como fizeram a Alemanha ou o Japão. Se tivermos algumas discordâncias, usaremos a via da reforma, da negociação e da discussão. Assim poderemos desenvolver nosso socialismo com características chinesas de modo independente, mas sem criar problemas para outros países.
Mas a China, como Donald Rumsfeld gosta de observar, tem gastos militares de até US$ 70 bilhões por ano. E, embora seja verdade que a China é um ator maduro no cenário mundial, em algumas questões ela busca seus interesses de modo bastante duro. Por exemplo, a China resistiu a sanções da ONU contra um governo sudanês que cometia genocídio na região de Darfur por causa de seus interesses no petróleo.
Observando o envolvimento da China no sistema internacional, você verá que nossa atitude a partir de 1979 em geral beneficiou o sistema global. Sobre a questão da defesa - bem, somos um grande país, com 1,3 bilhão de habitantes e uma fronteira extensa. Nosso desejo de atualizar nossas capacidades básicas de defesa é muito natural, particularmente num momento em que a tecnologia militar muda tão rápido, globalmente. Com outros países gastando bem mais que nós em defesa, não deveríamos melhorar a nossa? Deveríamos simplesmente abrir mão de nossa própria defesa?
O conceito de nossa força militar é concentrá-la na manutenção da paz com os outros países, até mesmo com Taiwan, no outro lado do estreito. Considere a situação nuclear na Coréia do Norte. A posição da China é bastante clara e o país trabalha duro ao lado dos Estados Unidos na busca de uma Coréia livre de armas nucleares. Isto é reconhecido por todos os países, incluindo os Estados Unidos.
Mas agora é de conhecimento público que a China ainda em 1996 disseminava tecnologia nuclear para o Paquistão e a Coréia do Norte, e a Agência Central de Inteligência (CIA) diz não poder confirmar que isso parou. Por isso, sua idéia de "ascensão pacífica" da China talvez não tenha sido totalmente aceita pelo governo chinês.
Creio que minha visão corresponde à estratégia nacional. Eventos que aconteceram no passado já aconteceram. Não vou comentá-los. A questão crucial agora é garantir que a Coréia do Norte não se torne uma potência nuclear. Neste ponto, nosso objetivo é bem claro e nosso trabalho duro é reconhecido pela comunidade internacional. Hoje, se há algum país no mundo que não apóia a proliferação de armas nucleares, é a China, e creio que isso é positivo.
O sr. acha que as pessoas se preocupam mais com a China porque ela carece de transparência e não é democrática?
Acho que as pessoas não compreendem a China claramente. Por sermos um partido comunista, as pessoas nos vêem como se vissem a União Soviética. Esta visão não é justa, pois os partidos comunistas são muito diferentes. Em 1979, ambos os partidos tomaram uma grande decisão sobre seu destino. O partido chinês moldou seu destino com reforma e abertura. Mas a União Soviética tomou a decisão de enviar suas tropas para o Afeganistão. Por outro lado, nosso sistema também é diferente do sistema democrático ocidental. Assim, quando você tenta explicar a China, é difícil. Mas, se você prestar atenção nas mudanças dos últimos 25 anos, verá que o estilo de vida democrático está em expansão aqui. Hoje temos mais jornais privados que jornais do partido. Temos centenas de milhões de pessoas com acesso à internet. A liberdade de expressão avança. As pessoas podem se envolver nas questões nacionais. Em alguns níveis de governo, as pessoas são escolhidas por mandato popular. O Judiciário está melhorando. São mudanças positivas.
Pode haver avanços significativos em relação à década de 80, mas nos últimos dois ou três anos houve um recuo em termos de liberdade pessoal e política.
Em geral, penso que continuaremos a avançar, com certeza. Nestes anos as pessoas se tornaram mais ricas, mais conscientes e mais envolvidas nos eventos nacionais. Recentemente, o Banco da Construção da China abriu o capital e arrecadou US$ 8 bilhões, a maior quantia levantada no país. Até o Bank of America pôs US$ 2,5 bilhões neste negócio, e chegou a nomear um vice-presidente americano para o banco, assim como 50 gerentes de alto escalão. Esta questão não envolve apenas a compra ou a venda de ações de uma companhia. Por trás da troca de dinheiro estão as mudanças que ocorrem no sistema - novas maneiras de administrar e descobrir talentos.
Tenho certeza de que as reformas econômicas da China continuarão. Eu me referia principalmente às mudanças pessoais e políticas. Na verdade, se a China continuar com seu capitalismo sob controle estatal e limitar as mudanças políticas, em breve parecerá um Estado fascista.
O objetivo de nossa reforma política no longo prazo é a política democrática. Esta e o desenvolvimento pacífico são os dois grandes conceitos que promoveremos nos próximos 25 anos.
Muitos americanos temem que o crescimento econômico da China desafie a posição dos Estados Unidos, ou pelo menos a prejudique. O sr. acredita que os EUA serão maduros o bastante para aceitar a ascensão da China e acomodá-la no cenário mundial?
Esta é uma questão com a qual todos deveríamos estar preocupados. Mas também precisamos estar preparados para enfrentar as disputas e conflitos que provavelmente surgirão enquanto fazemos isso. Tanto a China quanto os EUA precisam ter calma ao lidar com isso. Por exemplo, fala-se em como os têxteis chineses estão tirando empregos dos americanos. Precisamos analisar isso e perguntar se os trabalhadores americanos bem remunerados podem competir com os que produzem os têxteis chineses de baixo custo. Para fazer isso, os EUA precisam melhorar seu setor têxtil, em vez de rejeitar as importações. Além disso, os consumidores americanos se beneficiam com os produtos baratos que vêm da China, pois isso mantém a inflação baixa. E considere também que a China gastou muito dinheiro (cerca de US$ 400 bilhões) comprando a dívida nacional dos EUA.