Título: Sem alternativa, Lula vai apelar para projetos sociais em 2006
Autor: Marcelo de Moraes
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/11/2005, Nacional, p. A4
Para oposicionista, governo vai 'injetar dinheiro na veia do eleitor' em busca de votos
A queda na avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apontada pela pesquisa CNT/Sensus, e a indicação de um cenário pouco otimista na economia fizeram com que governistas e oposição chegassem a um raro consenso. Os dois lados avaliam que o processo eleitoral do próximo ano poderá ser definido pela capacidade ou não de o governo obter sucesso com sua política social. Governistas concordam que bons resultados nesse setor, especialmente dos programas Bolsa-Família e Luz para Todos, e na geração de empregos poderão produzir o efeito necessário para driblar o maciço ataque da oposição na campanha eleitoral, centrado nas denúncias de corrupção contra PT e governo. E a oposição também acha que o governo fará de tudo para faturar dividendos políticos com suas ações sociais.
"Não tenho dúvida nenhuma de que o governo pretende usar eleitoralmente sua área social, como o programa Bolsa-Família, e apelar para o assistencialismo. O governo quer injetar dinheiro direto na veia do eleitor", avisa o líder do PFL, deputado Rodrigo Maia (RJ).
"Com discurso e ação fortes na área social, poderemos ser bem-sucedidos na campanha. Porque se houver queda expressiva de juros, como se espera para o próximo ano, isso ataca diretamente a classe média, aquece a economia e gera empregos. E um Bolsa-Família forte ataca diretamente as necessidades das camadas mais baixas", avalia o deputado petista José Eduardo Martins Cardozo (SP).
A preocupação do governo com o cenário de 2006 aumentou após a pesquisa CNT/Sensus, que apontou, na terça-feira, a rejeição do presidente Lula saltando de 39,35%, em setembro, para 46,7% em novembro. Historicamente, 35% é o limite de rejeição para um candidato disputar uma nova eleição com chances. Acima disso, a situação se complica.
Originalmente, o governo avaliava que a economia, mais que os programas sociais, seria sua melhor arma em 2006. Essa certeza já não é tão forte e a área social surge como o roteiro mais seguro para a campanha eleitoral.
Além disso, a expectativa de crescimento para 2006 está sendo reduzida por todos os especialistas e a produção da atividade industrial, segundo projeção feita pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), também deve recuar em setores importantes como borracha, plástico, têxteis, metalurgia básica, vestuário e acessórios, madeira, calçados e artigos de couro.
Trata-se de setores que são grandes geradores de empregos. Preocupado com o reflexo desse cenário nas políticas que o governo possa adotar, o secretário nacional de organização do PT, Romênio Pereira, critica a prioridade excessiva dada ao equilíbrio econômico nos primeiros três anos de Lula. Romênio acha que, agora, o foco deve ser mesmo centrado nos programas sociais e em projetos de infra-estrutura. "Porque, se isso não for feito, e continuarmos priorizando o ajuste, periga você ter limpado a casa para outra pessoa morar", diz Romênio.