Título: Palocci diz que BC não exagerou na dose, mas admite ajustes
Autor: Irany Tereza
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/12/2005, Economia & Negócios, p. B4
O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, admitiu a possibilidade de revisão do grau de austeridade da política monetária - que tem na taxa de juros o seu mais importante balizador -, embora tenha defendido a atuação do Banco Central (BC) no controle da inflação. "Penso que não foi erro de dose. O combate da inflação tem custo. Ajustar o ponto de vista fiscal do País tem custo, exige esforço. Em 2003, quando fizemos um esforço mais amplo, tivemos juros de mais de 25%", declarou. Em discurso durante almoço promovido em sua homenagem pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) e, mais tarde, em tumultuada entrevista na saída do evento, ele defendeu a legitimidade do debate sobre o ritmo de redução dos juros, mas atacou uma mudança de rumo na política monetária, sustentando que o crescimento deve ser fundamentado na política de metas de inflação.
"As pessoas dizem que, talvez, a dose do remédio esteja exagerada. Podemos debater, não acho indesejável, ilegítimo ou antipatriótico discutir se as doses são adequadas e, principalmente, ajustá-las, se não forem", declarou para uma platéia de cerca de 400 pessoas, onde havia poucos representantes de grandes empresa e alguns políticos do PT e de partidos aliados.
Palocci centrou o discurso na defesa dos fundamentos econômicos para o combate da inflação. "Às vezes, é necessário pagar o custo de uma política monetária rígida para que possamos garantir um crescimento no longo prazo, para que pensemos além do dia de amanhã", disse.
O ministro rebateu, com rispidez, as recentes propostas de adoção de novos modelos econômicos, lembrando medidas anteriores, como o congelamento de preços e tablita, que tiveram "resultados espetaculares no curto prazo e desastrosos no médio e longo prazos".
Ele negou, contudo, que estivesse respondendo às críticas da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, em entrevista ao Estado, que discordou da política fiscal de longo prazo. "Tenho pela ministra Dilma o mais alto respeito. Ela é extremamente ativa no governo e minha companheira. O fato de termos tido, há uma semana, uma opinião divergente sobre uma questão de política de longo prazo não faz com que eu deseje ou tenha um debate permanente e divergente com a ministra. Me referi (no discurso) ao debate com aqueles que acham que a inflação não faz tão mal à economia e à renda", explicou o ministro.
Há alguns dias, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, propôs a ampliação do Conselho Monetário Nacional (CMN) e comentou que a eventual saída de Palocci do governo não seria problema.
O almoço foi uma espécie de desagravo idealizado pelo presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, do qual participou o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Claudio Vaz, que se opõe a Skaf.
Na linha de pensamento destacada no dia anterior pelo presidente Lula, Palocci reconheceu que a crise política influenciou o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre (-1,2%) na medida em que causou o adiamento de investimentos e a redução do consumo de bens duráveis. Mas avaliou que as expectativas negativas de empresários e consumidores estão se revertendo e projetou um resultado melhor para o quarto trimestre.
"O que penso ser inadequado é que a todo momento em que alguma dificuldade aparece, voltamos ao velho debate que, no fundo, é se vale a pena controlar a inflação ou não. Essa é uma questão perigosa para o futuro da economia, disse Palocci.